Colin Powell, consenso na morte e mentira em vida

António Santos

A comunicação social da classe dominante do mundo inteiro uniu-se, na segunda-feira, para cantar elegia fúnebre a Colin Powell. Também nos EUA, espelhando a monolítica unidade de classe entre republicanos e democratas, a morte do criminoso de guerra foi lamentada como a perda de um herói, um democrata e um incansável lutador pela igualdade.

Mestre de cerimónias dessa unidade, Biden proclamou o falecido republicano e renascido democrata como «um patriota de honra e dignidade sem paralelo» que «repetidamente rompeu as barreiras raciais» e cujo «compromisso pessoal com os nossos valores democráticos tornam o nosso país forte». Mesmo à «esquerda», os «Socialistas» Democráticos da América descreveram Powell como «só um homem negro a tentar compreender o mundo» e «uma inspiração». A morte sintetiza politicamente o consenso de classe.

O que não foi dito sobre o general, conselheiro nacional de segurança, presidente do Estado-Maior Conjunto e secretário de Estado, é que o seu nome assinou a sentença de morte de milhões de pessoas durante quase meio século. Powell começou a carreira imperialista semeando a morte no Vietname, em 1963. Depois, trabalhou com Frank Carlucci na administração Nixon e foi o responsável pela invasão e ocupação do Panamá em 1989. Foi também um dos arquitectos da primeira guerra do Golfo, em que popularizou a chamada «doutrina Powell»: «primeiro chegamos lá, depois cortamos e por fim matamos», explicou um dia o defunto.

Colin Powell também assinou a invasão da Somáia em 1992, a invasão e a ocupação do Afeganistão em 2001 e do Iraque, em 2003. Apenas esta última custou a vida a mais de um milhão de pessoas.

A História lembrará Colin Powell pelo desplante da «grande mentira», em 2003, quando garantiu às Nações Unidas e ao mundo que tinha provas de que o Iraque tinha armas de destruição em massa. «Cada afirmação que hoje faço», asseverou Powell ao Conselho de Segurança, «é suportada por fontes, fontes sólidas. Não faço alegações. O que vos estou a dar são factos e conclusões baseadas em provas sólidas». Apropriadamente, na sua morte foi recordado também com uma «grande mentira» sobre tudo aquilo que o seu legado não é.




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