Resistência(s)
A Resistência francesa à ocupação alemã aconteceu há cerca de oitenta anos e, contudo, recordá-la ainda suscita alguma emoção não apenas nos que de perto ou de longe a viveram, que aliás já serão muito poucos, mas também nos que a «vivem» na medida em que somos capazes de «viver» não apenas o que factualmente entrou nas nossas vidas mas também o que adoptámos na sequência de peculiares simpatias. É certo que a circunstância de o nazismo ter sido vencido, sim, mas não extirpado em todas as suas raízes, contribui para a subsistência de uma espécie de antinazismo endémico que é saudável e se parece um pouco com uma vacina que se deseja muito que se mantenha eficaz. Quando um grupo de sujeitos situados entre a bruteza e a inconsciência vai ao sótão das velharias e de lá volta agitando a cruz gamada, há reflexos de repúdio que se reafirmam, o que é saudável. O que não implica que desejemos a multiplicação de cruzes gamadas para que se intensifique a sua rejeição.
A imagem no espelho
Vem isto a propósito, ou talvez não muito, da transmissão pela RTP2 (naturalmente…) de um telefilme francês que nos contava um episódio da resistência francesa à ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial: «Os jovens, o traidor e os nazis». Tratava-se também, talvez sobretudo, de uma incursão nos meandros de um processo de traição cujo entendimento, mas não a sua aceitação, é um adequado apoio para a compreensão das coisas mesmo quando elas repugnem. Mas para lá do jovem que era a figura central do episódio que nos ia sendo contado surgia, nítida e digamos que quase contagiosa, a coragem de um grupo de estudantes que obedecia ao dever imperioso de continuar a resistir contra tudo e sobretudo contra o aparente bom senso que aconselharia a capitulação. A questão será que o bom senso ou a prudência, em princípio recomendáveis, podem ser por vezes pseudónimos da pusilanimidade, situações em que é preciso suspeitar deles, primeiro, e rejeitá-los depois. Para que possamos continuar a vermo-nos ao espelho sem que a imagem nos surja embaciada.