Ex-presidente da Colômbia reconhece execução de civis por parte do Exército
O ex-presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos (2010-2018), pediu perdão às famílias das vítimas do horror dos denominados «falsos positivos» – as execuções de civis por parte do Exército, durante o conflito armado no país, entre o Estado e o movimento guerrilheiro.
Numa declaração pública em Bogotá, no dia 11, perante a Comissão da Verdade, o ex-governante pormenorizou como descobriu este tipo de acções que os militares cometiam desde há anos, e que também sucederam quando ocupou o cargo de ministro da Defesa (2006-2009) no governo de Álvaro Uribe, período em que começaram as denúncias desses crimes.
Santos afirmou que, apesar de ter feito tudo o que era humana e legalmente possível, não se conseguiu acabar de uma só vez com os «falsos positivos». «Não era fácil», e «mudar a cultura e investigar qualquer instituição leva tempo, é difícil, sobretudo quando se trata de instituições tão conservadoras como as Forças Armadas», desculpou-se o ex-governante, segundo um relato da Prensa Latina.
«Creio, contudo, e sinceramente, que o objectivo fundamental de acabar com os “falsos positivos” foi conseguido. Mas ficam-me os remorsos e o profundo pesar de que durante o meu ministério muitas, muitíssimas mães (…) perderam os seus filhos por esta prática tão desapiedada, uns jovens inocentes que hoje deveriam estar vivos. Isso nunca se devia ter passado», acrescentou.
Na sua extensa declaração, expressou que o Exército, em algum momento, deve dizer à Colômbia e ao mundo que permitiu que isto sucedesse e, embora não fosse essa a doutrina, permitiu-o, e por isso peça perdão.
«Com este reconhecimento não pretendo minimizar a gravidade do que se passou na Colômbia entre 2002 e 2008. Quando membros do nosso Exército violaram o seu juramente de proteger a vida dos colombianos e converteram-se em seus assassinos», sublinhou Juan Manuel Santos.
A pressão para produzir baixas e os prémios para o conseguir foram, sem dúvida, os incentivos para gerar o que veio depois, disse, referindo-se aos milhares de vítimas que a Jurisdição Especial para a Paz (JEP) contabiliza. Também relatou as suas diferenças com o ex-presidente Álvaro Uribe sobre a condução da guerra quando ocupou o cargo de ministro da Defesa.
«Baixas em combate»
Em 2012 começaram os diálogos de paz em Cuba, entre o governo de Santos, em representação do Estado, e as Forças Armadas Revolucionárias do Povo - Exército do Povo (FARC-EP). Depois de quatro anos de conversações, conseguiram pôr fim a um longo conflito armado e assinar o Acordo de Paz de Havana.
Os chamados «falsos positivos» estão catalogados como um crime de lesa-humanidade e, embora se trate de uma prática que na Colômbia ocorria desde 1978, em 2008 passaram a estar em foco na opinião pública após o achado dos cadáveres de 19 jovens desaparecidos, que foram apresentados pelo Exército como guerrilheiros mortos em combate.
As forças militares da Colômbia assassinaram pelo menos 6.402 civis entre 2002 e 2008, apresentando-as como «baixas [guerrilheiras] em combate», segundo a Jurisdição Especial para a Paz (JEP).
A Comissão da Verdade foi criada em 2017 no contexto do Acordo de Paz para o fim do conflito e a construção de uma paz estável e duradoura na Colômbia.
As declarações de Juan Manuel Santos coincidem com a actual vaga de manifestações anti-governamentais, a decorrer desde 28 de Abril, quando foi convocada uma greve, continuada, até agora, com sucessivas mobilizações e protestos populares, barbaramente reprimidos pelas forças policiais e militares a mando do Governo presidido por Iván Duque.