O prazer da liberdade

Sérgio Dias Branco

Um ousado e imaginativo hino à liberdade da revolução

Assistir a este filme é um prazer, camaradas. A própria obra evoca o que aparece escrito numa parede nos primeiros minutos: «A cultura é a liberdade do povo.» Ora bem, a liberdade é mesmo o centro gravitacional de Prazer, Camaradas! (2019), pois ela implica o desejo de libertação e o gozo de ser livre, o antes e o depois, sendo que esta sequência pode ser baralhada. O tempo, especialmente o tempo da revolução, não é linear.

José Filipe Costa tinha revisitado a Revolução de Abril em Linha Vermelha (2011). A ocupação da herdade da Torre Bela em 1975 foi filmada pela equipa de Thomas Harlan. 35 anos depois, este documentário voltava à obra marcante de Harlan para investigar os bastidores e falar com participantes. Era um filme analítico sobre a memória, incluindo sobre a disputa ideológica em torno do 25 de Abril e do seu significado político, cada vez mais intensa. Debruçava-se sobre as fissuras do tempo que abrem possibilidades de ligações entre períodos históricos e permitem que comuniquem, isto é, que alguns dos seus elementos sejam postos em comum.

Em Prazer, Camaradas!, este tempo fissurado é assumido como central. Trata-se de uma docuficção, uma obra cinematográfica híbrida que se situa entre o documentário e a ficção, mantendo-se fiel à matéria factual de base, mas dramatizando os eventos ocorridos. Neste caso, o filme regressa a episódios passados em 1975. Eduarda, João, e Mick viajaram do norte da Europa rumo ao sul de Portugal para trabalhar numa cooperativa e clínica instalada numa quinta ocupada em Aveiras de Cima, Azambuja. Vieram trabalhar na agricultura e na pecuária, dar consultas médicas e de planeamento familiar, mostrar filmes de educação sexual, dançar nos bailes tradicionais. Eram jovens e vieram participar na revolução.

A narrativa do filme foi construída a partir dos registos deixados por cooperantes. O francês Francis Pisani e a alemã Helga Novak escreveram livros sobre as suas experiências. José Rabaça e Eduarda Rosa deixaram diários. Essas fontes e outros documentos dão um retrato denso das vivências nas cooperativas. No filme, estas personagens jovens deambulam por ruínas e, depois, vão-se instalando num dia-a-dia que exige reflexão. São interpretadas por actores e actrizes não profissionais, com idades entre os sessenta e os setenta anos, num processo aberto à improvisação e ao avivar das memórias.

Em cada uma delas vemos em simultâneo o presente e o passado: a idade que têm e a idade que interpretam, o tempo actual e o tempo do processo revolucionário. Nesse sentido, a estrutura conceptual de Prazer, Camaradas! é verdadeiramente dialéctica, produzindo uma síntese que perspectiva tanto a história do que aconteceu como a história do que está a acontecer. O passado ainda está presente, ainda é presente. O olhar do realizador sustém a atenção aos detalhes significativos, inscritos através de um cuidadoso trabalho cenográfico e de figurinos. A encenação cria um jogo de espelhos que liga cada estória à história, num vai e vem.

Os embates culturais surgem desde o início. Quem chegou de fora tem dificuldade em lidar com o trato afectuoso do povo português. Sobram perguntas da parte dos «camaradas do norte». Escasseiam as respostas dos «camaradas do sul», porque as suas relações em interrogação e transformação, nomeadamente de problematização e superação de formas de desigualdade que afectam as mulheres. As mulheres não participam tanto nas decisões como os homens, mas governam a casa. Às mulheres cabem tarefas domésticas às quais os homens se esquivam, mas essa situação é alterada. É incutido nas mulheres que não têm direito ao prazer, nem sequer a saber o que é a sexualidade, mas também isso muda.

Uma das virtudes do filme é não contrapor a suposta «sofisticação» das mulheres estrangeiras ao hipotético «atraso» das mulheres portuguesas. As primeiras encontram nas segundas uma força que dizem não ter. Descobrem também a brejeirice de algumas. Evita-se, sobretudo, o simplismo superficial. Daí as questões de género aparecerem ligadas às questões de classe. E se há tensões, há igualmente cumplicidades entre mulheres e homens, entre portugueses e estrangeiros.

Prazer, Camaradas! estreou no Festival de Cinema de Locarno em 2019, mas só agora chegou aos ecrãs portugueses. Tem sido apresentado em várias localidades, com convidados em algumas sessões. Façam favor de não perder este ousado e imaginativo hino à liberdade da revolução que termina em festa — como deve ser, portanto.




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