A escalada contra a Bielorrússia

Os contornos do incidente com o voo da Ryanair que aterrou na capital bielorrussa, Minsk, permanecem obscuros, assim como os responsáveis e significado de todo o episódio, aconselhando prudência.

A escalada contra a Bielorrússia lembra a que foi movida contra a Jugoslávia

O Governo da Bielorrússia saudou o anúncio oficial da Organização de Aviação Civil Internacional (ICAO) de realizar uma investigação ao sucedido, alegando ser vítima de uma provocação. Em qualquer dos cenários possíveis, o tempo encarregar-se-á de mostrar se a atitude da liderança de Minsk foi adequada, num quadro complexo em que a antiga república soviética enfrenta uma operação de desestabilização comandada do exterior sem precedentes nos últimos 30 anos.

Sendo legítimas as interrogações levantadas pelo caso, importa sublinhar o carácter inaceitável da campanha imediatamente lançada pela UE contra o país e, pessoalmente, contra o presidente Lukachenko, a que se associam a NATO, Reino Unido, G7 e os EUA. A par da torrente de desinformação, não se fizeram esperar os anúncios de novas sanções, incluindo no plano económico. Clama-se por acções mais «musculadas» e cai o pudor em assumir que a espiral de hostilidades procura desestruturar a economia bielorrussa e causar descontentamento interno. A «guerra híbrida» do imperialismo contra a Bielorrússia, visando a mudança de regime e a reversão do curso político e económico nacional, entra numa nova fase.

Sobressaem o reforço do cerco militar e a deliberada tentativa de estrangulamento económico. À sombra da arbitrariedade, afronta-se o direito internacional. Está de regresso a invocação do espírito supremo dos tratados da NATO, do direito auto-atribuído de intervenção em nome da liberdade (e dos direitos humanos), trazendo à memória a criminosa agressão à Jugoslávia. O frenesim anti-bielorrusso vem inflamar mais as tensões no leste europeu, junto às fronteiras russas, num quadro de generalizada turbulência internacional, agravando as ameaças à paz mundial. Em toda esta história, a hipocrisia e o cinismo abundam. Três breves observações complementares, de distinto grau, ajudam a compreender o que está efectivamente em causa.

 

Antecedentes e personagens

Em primeiro lugar, a escandalosa dualidade de critérios face a comprovados episódios de pirataria aérea em que actuação ilegal das potências capitalistas e seus acólitos foi evidente. Em 2013, quando os EUA, quebrando todas as convenções diplomáticas, forçaram a aterragem e inspecção na Áustria do avião presidencial da Bolívia em que viajava o então presidente Evo Morales, por suspeitarem que o ex-agente dos serviços secretos norte-americanos, Snowden, poderia estar a bordo, o caso foi rapidamente silenciado. Na altura, Portugal foi um dos países que optou por fechar o espaço aéreo ao avião boliviano, numa atitude de vergonhosa subserviência e desrespeito pelo direito internacional.     

Em segundo lugar, a densa cortina de censura, manipulação e mentira para ocultar, sobretudo, quem é o personagem bielorrusso do voo da Ryanair, Protassevich, detido em Minsk. Ocultando que é um cidadão bielorrusso, com um mandado de captura pendente emitido pelas autoridades competentes do seu país pelo envolvimento na organização de actos de violência e subversão, após as eleições presidenciais de Agosto de 2020 na Bielorrússia, que configuraram uma inequívoca tentativa de golpe de Estado. Não é uma casualidade que o virtual jornalista da versão única veiculada pelos média dominantes é, afinal, um jovem «veterano» do golpe de estado da Maidan na Ucrâniae da guerra no Donbass que se lhe seguiu, tendo combatido no batalhão neonazi Azov. Segundo o próprio, pegou nas armas no Donbass para «ajustar contas com os comunistas». São estes os rapazes e heróis da liberdade que os EUA metodicamente têm financiado e formado no Leste da Europa e, em especial, nas ex-repúblicas da URSS. Os operacionais utilizados nas acções subversivas e «revoluções coloridas».

Já não é segredo que nos últimos anos, Protassevich trabalhou directamente com as secretas de Varsóvia, e depois, Vilnius. Sempre sob a supervisão dos respectivos serviços dos EUA. São verdades incómodas para a narrativa dominante. Por isso, o papel das forças neonazis e fascistas no actual poder ucraniano permanece largamente um tema tabu. É aliás atroz o manto de silêncio em torno da tragédia ucraniana – a destruição da economia, a entrega da soberania nacional ao diktat dos EUA e UE, a pilhagem de recursos pela oligarquia e o grande capital transnacional, o empobrecimento de milhões de ucranianos –, descarregando o ónus no Kremlin.

 

Espiral agressiva

Por fim, a inversão da verdade da situação na Bielorrússia e o total branqueamento da continuada agressão imperialista. Lukachenko tem razão quando afirma que neste capítulo todas as «linhas vermelhas» foram ultrapassadas. Muito antes do voo da Ryanair de 23 de Maio.

O país passou a «última ditadura da Europa» após cometer o pecado mortal, nos sombrios anos 90, de inverter o curso de terapia de choque e restaurar a economia e soberania nacionais. Daí as sanções da UE e EUA. A golpaça de proclamação, com Tikhanovskaya, de um governo paralelo, à semelhança da farsa-Guaidó na Venezuela, fracassou. Apesar da utilização de quase todo o arsenal: desordem e violência terroristas, apelos ao boicota nas grandes empresas estatais, a tentativa de assassinato da cúpula do poder, de golpe militar…

É este o contexto da conspiração que prossegue e que cabe não perder de vista. Tendo presente que a Bielorrússia é uma peça da estratégia de demonização da Rússia e da espiral agressiva do sistema em declínio contra a China, reconhecida como grande «desafio estratégico» dos EUA no século XXI.

 



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