Resistência na Palestina face à ocupação e opressão
A paragem dos bombardeamentos sobre a Faixa de Gaza, que deixaram um rasto de destruição e morte, não representou o fim da violência. Em Jerusalém, na Cisjordânia e em Israel prossegue a repressão dos palestinianos.
A repressão de Israel sobre os palestinianos não pára de aumentar
Lusa
Onze dias de bombardeamentos provocaram cerca de 250 vítimas mortais na Faixa de Gaza, entre os quais 67 crianças, e 1700 feridos. Elevam-se a dezenas de milhares os que viram as suas casas total ou parcialmente destruídas. No dia 21, o anúncio do cessar-fogo foi recebido em festa pelos palestinianos, que o assumem como uma vitória da resistência.
A repressão, essa, não abranda, como testemunha o início da chamada Operação Lei e Ordem, com a qual as autoridades de Israel pretendem ajustar contas com os cidadãos israelitas de origem palestiniana que alegadamente tenham estado envolvidos nos protestos contra a ocupação, a segregação e os bombardeamentos. Várias fontes dão conta de detenções violentas, invasão de domicílios e intimidação de menores e famílias.
Desde 9 de Maio terão sido presos para cima de 1500 palestinianos com cidadania israelita, dos quais 200 serão acusados judicialmente. A isto acresce os mais de 2400 detidos – no mesmo período – um pouco por toda a Cisjordânia. A Sociedade de Presos Palestinianos refere ainda o aumento das detenções administrativas, o mais elevado dos últimos anos.
Firme solidariedade
Logo a 10 de Maio, ainda as bombas não caíam sobre a Faixa de Gaza, e já o PCP reafirmava os seus princípios relativamente a esta questão: «Apelando à solidariedade para com o povo palestiniano, o PCP exige a libertação dos milhares de presos políticos palestinianos nas prisões israelitas, o fim do bloqueio à população palestiniana na Faixa de Gaza, a concretização do direito do povo palestiniano a um Estado independente, com as fronteiras de 1967, com capital em Jerusalém Oriental, e do direito ao retorno dos refugiados palestinianos.»
Manifestava, ainda, a sua «solidariedade de princípio com o povo palestiniano e com a sua justa luta contra a ocupação e pelos seus direitos nacionais, internacionalmente reconhecidos mas não concretizados».
«Um povo inteiro levantou-se, apoiando a resistência»
Fayez Badawi, da Frente Popular de Libertação da Palestina
Qual a situação na Palestina, após a recente agressão israelita?
Em primeiro lugar, gostaria de expressar em nome do povo palestiniano cordiais saudações ao povo português, ao seu Partido Comunista e a todos os que apoiam o povo palestiniano nestes tempos difíceis. Nestes dias, o nosso povo está a escrever a história com o seu sangue e a sua alma.
Face à agressão criminosa e genocida, de limpeza étnica, realizada pelo Estado fabricado de Israel, o povo palestiniano respondeu com a resistência a todos os níveis: foi a resistência de um povo desarmado, na diáspora, nos campos de refugiados do Líbano, da Síria, da Jordânia e do resto do mundo. A resistência em Jerusalém, no bairro de Sheikh Jarrah, na Cisjordânia, em Gaza, Acre, Haifa, Nazaré, em toda a Galileia, em Umm Al Fahm, no Negev, e em todo o território nacional palestiniano. A resistência da água à água, do Mar Mediterrâneo ao Rio Jordão. Um povo inteiro levantou-se, apoiando a resistência.
Como avalia a mobilização popular, inclusive em Israel, contra as acções agressivas ilegais, provocatórias e brutais das autoridades israelitas?
O nosso povo está a pagar um elevado preço, mas todavia muito menos custoso do que a rendição ou a claudicação. O nosso povo tem o direito de viver como todos os povos do mundo. (…)
Hoje, em Gaza, estamos a ver os massacres realizados pelo exército israelita (o quarto mais poderoso do mundo), com os seus F-35, o mais recente modelo de aviação militar assassina e criminosa com que atacou Gaza, o maior campo de concentração da história. O que esses soldados israelitas fizeram foi exterminar 11 famílias, assassinando todos os seus membros, crianças e adultos. Estão a destruir tudo, equipamentos médicos, ambulâncias, casas, prédios e toda a infra-estrutura de que dispomos. Isto é Israel: é o crime organizado. Mas Israel seria incapaz de o fazer sem a cumplicidade da chamada comunidade internacional, liderada pela UE e pelos EUA. (…)
Este é o povo palestiniano e queremos que o mundo saiba que a única coisa que nos resta é a dignidade, a resistência em todas as suas formas, liderada pela resistência armada. (…)
Como intervém a FPLP face à evolução da situação?
A FPLP é uma organização que está ao serviço do povo e unida pelos seus interesses e preocupações. Face à agressão, temos integrado o comando da resistência para defender a nossa causa e o nosso povo oprimido, temos estado – e estamos – em todas as frentes.
Agora, perante esta nova situação, temos de continuar a trabalhar no nosso projecto de libertação nacional: está próxima e esta experiência é essencial para nós! Temos que remover a liderança actual e colocar uma nova liderança do povo.
A recente agressão «despertou o espírito nacional palestiniano»
Nedal Fatou, da Frente Democrática de Libertação da Palestina
Qual a situação na Palestina, após a recente agressão israelita?
Permitam-me dizer em voz alta «Viva a luta do povo palestiniano!» e desejar um descanso eterno para os compatriotas mártires palestinianos – especialmente às mais de 67 crianças que a máquina militar sionista arrancou dos colos das suas famílias – e uma recuperação rápida para os feridos. (…)
A recente agressão israelita (...) despertou o espírito nacional palestiniano, mobilizou todos os palestinianos a se levantarem juntos para defender Jerusalém das contínuas agressões dos colonos contra a Esplanada das Mesquitas e contra o confisco do bairro Sheikh Jarrah. A resistência nacional em Gaza, as Brigadas de Resistência Nacional (FDLP), as Brigadas al-Qssam (Hamas), a Saraya al-Quds (Jihad Islâmica), as Brigadas Abu Ali Mustafá foram decisivas para deter os abusos sionistas contra o povo palestiniano. (…)
Como avalia a mobilização popular, inclusive em Israel, contra acções ilegais, agressivas, provocatórias e brutais das autoridades israelitas?
As mobilizações populares são uma importante forma de reivindicação na luta dos povos. (…) Recentemente, as manifestações dos jovens de Jerusalém impediram a instalação de câmaras nas entradas da Mesquita de al-Aqsa. Sem esquecer que os protestos de solidariedade física, e através das redes sociais, contra o confisco das casas no bairro Sheikh Jarrah tiveram resultados positivos e colocaram a causa palestiniana de volta ao imaginário colectivo mundial.
Dentro de Israel, são anos de protestos contra as políticas de Netanyahu. No entanto, os protestos palestinianos em cidades israelitas mistas foram motivados pela agressão brutal das autoridades israelitas e colonos contra a Mesquita de al-Aqsa. O que mais preocupa agora são as detenções dos manifestantes identificados e as possíveis punições que lhes serão infligidas pelos protestos a favor dos seus irmãos palestinianos ocupados pelas autoridades sionistas.
Como intervém a FDLP face à evolução da situação?
O FDLP é um partido fundador da OLP, que sempre trabalhou para fortalecer a unidade nacional e a reconciliação entre os palestinianos. Em Gaza, dispõe das Brigadas de Resistência Nacional, que há anos colaboram com a resistência palestiniana. A FDLP exortou a liderança política palestiniana a aproveitar este momento histórico, a abandonar os acordos de Oslo e a retornar às trincheiras da resistência, em todas as suas formas, especialmente na Cisjordânia, e a um programa político intitulado «Unidade e Resistência». (…)
Entrevistas realizadas por correio electrónico