Uma estranha forma de ser «pró-vida»

António Santos

«O nosso criador concedeu a todos o direito à vida». Levando estas palavras a sério, quem ouvisse Greg Abbott anunciar, na semana passada, «um passo histórico na batalha para proteger a vida», não duvidaria que o governador do Texas hesitasse em assinar o pedido de clemência de Quintin Jones. Horas antes, o afro-americano de 41 anos, preso desde os 20, era amarrado à mesa das execuções para receber uma fatal injecção intravenosa de pentobarbital. O discurso do governador referia-se à nova lei «do bater do coração» que veio proibir o aborto depois das seis semanas, mesmo em casos de incesto e violação. Ou o «direito à vida» só conta entre as seis semanas e os 40 anos, ou as palavras da direita moralista não são para se levarem a sério.

A inclemência com Quintin Jones, que pedia a substituição da pena de morte por prisão perpétua, contrasta com a decisão, de 2018, de poupar a vida a Thomas Whitaker. Ambos estavam no corredor da morte texano pelo homicídio de familiares. Ambos confessaram, demonstraram arrependimento e foram perdoados pelas respectivas famílias. Mas Thomas Whitaker, que matou a mãe e o irmão para ficar com o dinheiro da seguradora, era branco e vinha de uma família rica. Já Quintin Jones, que matou a tia-avó para roubar 30 dólares, era negro. Jones crescera na miséria, num lar onde quotidianamente era vítima de violência e de abusos sexuais. Quando cometeu o crime era alcoólico e toxicodependente.

Lembremo-nos que desde 1982, o Estado do Texas já executou 571 pessoas. Lembremo-nos de que eram, quase todas, o coeficiente biográfico da exclusão social, da pobreza e do desamparo na educação, na saúde, na habitação e na segurança social.

«Lembremo-nos do nosso dever sagrado de proteger as vidas nossos cidadãos, especialmente os mais vulneráveis» prosseguiu o insofismável governador que, evidentemente, não estava a falar da pena de morte, nem de negros, nem de pobres.




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