Cais do Ginjal, de Romeu Correia

Domingos Lobo

Romeu Henrique Correia, nasceu em Cacilhas a 17 de Novembro de 1917.

Fortemente ligado às tradições populares e às colectividades da sua margem sul, a Cacilhas, ao Cais do Ginjal e suas gentes, a Almada que o via percorrer, pelas tardes soalheiras, as ruas com história da cidade velha, ou em tertúlias à mesa do Café Central, as noites de cinema na Academia Almadense. Autor atento às lutas do povo miúdo e às suas peculiares voltas de estancar o medo e a má-sorte, não lhe escapava esse vínculo iniciático de rebeldia popular que eram as antigas cegadas carnavalescas. O dramaturgo que nele habitava como respiração primordial começa a esboçar-se nesse chão do mais genuíno, satírico, grotesco modo de esconjuro e medievo acinte, de escárnio e maldizer, onde toda a liberdade era possível, legado pela genialidade de mestre Gil. Transgressão libertária que o fascismo, persecutório, acabou por proibir.

Em Cais do Ginjal, a sua última novela (1989), agora reeditada, habita esse mundo fantástico, do Arrobas, que vencia, a força de músculos, todos os peralvilhos que o desafiavam; o João dos Galos; o Carlos Pitocero, poeta e filósofo; o Sabino Costa, «maluquinho» por princesas e reis defuntos, almirante de ópera bufa no seu escaler Rainha Vitória; a Ermelinda, operária da conserveira La Paloma, mulher de firmes convicções, revolucionária que não escapará aos bufos e à «pevide»; a formosa Albertina dos sonhos lúbricos, que fugiu com o Toninho da Arealva, trinta anos mais velho do que ela, deixando as tias solteironas ainda mais sós e sem esperança de encontrar naquele cais de gente rude, de marítimos, tanoeiros, moços de armazém e fragateiros, homem com pergaminhos suficientes para se consorciar com senhoras de família respeitável. No Ginjal só havia dessa «gente que não lhes servia para o matrimónio».

Cais do Ginjal é um livro luminoso, mesmo quando o desespero e o sofrimento mais atroz (a fome, o desemprego, o medo, a violência dos dias, as casas insalubres), agitam o seu espaço narrativo. A forma discursiva de Romeu Correia é ágil, percorrendo com a mesma sobriedade, numa prosa atravessada pelo onírico e pelo poético, o pícaro e o drama, dando das gentes do Ginjal uma dimensão telúrica e humana plena de impressivos cambiantes, reflectindo com verosimilhança os quotidianos das gentes da outra banda, onde as lágrimas convivem de perto com explosões de alegria, com preconceitos e rebeldias, com paixões e desesperadas mágoas.

Romeu Correia conheceu bem a realidade que descreve. Algumas das personagens que surgem em Cais do Ginjal já viajaram pelo seu teatro, as tias solteiras estão presentes nessa magnífica peça que é Jangada, os poetas e vagabundos líricos têm mãos de ouro, outras povoam os seus romances, desde Trapo Azul a Calamento. Há muito de autodiegético em Cais do Ginjal, pedaços de uma memória viva e sensível às coisas e à fauna humana desse universo situado entre Cacilhas, o Ginjal, a imensidão do Tejo e as gentes que nele labutam. Uma memória sensitiva, seduzida por esse lugar único e em permanente exercício rememorativo.

O narrador de Cais do Ginjal, Romeu, que já aparece no seu romance anterior O Tritão, embora ainda criança, é agora um jovem adolescente que sonha, quando chegar o tempo de assentar praça, alistar-se na Marinha. Deixado pelos pais, que se separaram, ao cuidado da avó e das tias, ele irá sentir, naquele cais de regressos e partidas, os frémitos do seu corpo em mutação, o amor e o desejo. A Sereia, que percorre os seus sonhos, que os agita até ao deslumbramento, é o sinal desse despertar para as coisas da vida, as boas e as que merecem cautela.

Ermelinda, a operária, será a primeira mulher a entregar-se-lhe inteira, a incutir-lhe responsabilidade. Com Ermelinda, que tem o pai preso na Fortaleza de Angra e o irmão na luta clandestina, e o filho de ambos que há-de nascer, Romeu deixará para trás o adolescente fascinado pelo rio e seus oníricos apelos, começará a crescer, não apenas como homem, também como ser que começa a tomar consciência da situação social e política do país que habita.

«A primeira coisa que Ermelinda iria dizer aos esbirros, se lhe batesse, era que estava grávida. Naquele seu jeito, chamar-lhes-ia assassinos, disposta a cuspir-lhes na cara.»




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