Materialista e dialéctica é esta dança

Jorge Feliciano

As peças de Cláudia Dias são uma vitória na batalha pelo conteúdo

Corre o ano de 2010 quando os trabalhadores das artes e da cultura são confrontados com os PEC do governo PS de Sócrates que, como em outras áreas, aplicaram cortes cegos num sector já altamente fustigado pelo desinvestimento e precariedade. Acto contínuo, o fim deste governo conflui no acordo de PS, PSD e CDS – a troika nacional – em chamar a troika estrangeira – Comissão Europeia, BCE e FMI – que juntos urdiram o Pacto de Agressão ao nosso povo e ao nosso País aplicado pelo governo seguinte, o de PSD e CDS de Coelho e Portas.

A dita política de austeridade concertada pelas duas troikas arrasou salários, direitos e serviços públicos.

O sector cultural e artístico obviamente não ficou ileso e viu-se perante novos cortes em cima dos velhos cortes que levaram ao desmantelamento de estruturas profissionais, à limitação da actividade das sobreviventes, ao desemprego automático de centenas de trabalhadores e ao aprofundamento da precarização daqueles que se mantiveram na profissão.

É neste contexto, de destruição programada, que Claúdia Dias, bailarina e coreógrafa almadense, nome cimeiro da dança contemporânea portuguesa, assume um gesto político de fôlego: congregar vontades e possibilidades dispersas, até contraditórias, em torno de um processo planeado de resistência, de luta pelo direito ao futuro, de direito ao trabalho nas artes, a que chamou 7 anos, 7 peças.

Dez anos passaram deste combate, materializado publicamente a partir de 2016 com a estreia precisamente de um combate de boxe, a peça Segunda-Feira: atenção à direita!

De lá para cá, Cláudia Dias colocou-nos perante Terça-Feira: tudo o que é sólido dissolve-se no ar; Quarta-feira: o tempo das cerejas; Quinta-feira: abracadabra; e Sexta-feira: o fim do mundo... Ou então não. Ao longo dos meses de Abril e Maio as peças reunidas podem ser vistas no Teatro São Luiz em Lisboa num vasto programa que inclui conversas e acções com os múltiplos trabalhadores, participantes, alunos e cúmplices deste projecto.

A par da criação de peças, também como acto planeado de inscrição no futuro deste exemplo de resistência, foram lançados três livros com os textos das três primeiras peças e serão lançados mais dois no próximo dia 30 de Abril, no Salão Nobre do Teatro Dona Maria II, estando em preparação um livro sobre o projecto em toda a sua dimensão política e artística que inclui um vasto trabalho pedagógico realizado com alunos de escolas secundárias ao longo destes anos.

 

Vitória em tempos difíceis

A dimensão política da poética das peças de Cláudia Dias é resultado de um método de trabalho maturado. Ligação ao mundo e à vida, modo de produção, processo de trabalho, forma e conteúdo operam em unidade dialéctica avançando e concretizando-se através do movimento gerado pelas suas contradições. Concretiza na dança contemporânea a perspectiva de Brecht de que «o mundo pode continuar a ser reproduzido, mesmo no teatro, mas somente se for concebido como um mundo susceptível de ser transformado». Nas suas peças, Cláudia Dias mostra-nos a engrenagem do Mundo, leva o espectador a focar, a analisar a situação que lhe é colocada, incita-o a tomar posições e decisões. Conduz-nos pelo fio da história saído da boca desta dança que narra como literalmente acontece em Terça-feira: tudo o que é sólido se desfaz no ar. Uma vitória, portanto, na batalha pelo conteúdo, que podemos reclamar como nossa nestes tempos difíceis. E a história não acaba aqui.




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