100 anos de cantos (conclusão)

Manuel Pires da Rocha

O cancioneiro popular é, de certo modo, uma das conquistas de Abril

Transposta a página 110 de 100 Anos de Luta, as imagens tomam o ritmo acelerado que a História tomou naqueles dias da Revolução. No início da operação militar, a voz de Paulo de Carvalho anuncia o adeus ao regime fascista num «quis saber quem sou» a que, poucas horas mais tarde, o povo de Lisboa responderia decidido e em massa. Nada que não estivesse programado nas lutas de que já demos conta, e nas canções que as cantaram. Em 25 de Abril de 1974 cumpriu-se a toada que dizia «ergue-te na noite, clandestino, / à luz do dia a felicidade, / que um novo sol vai nascendo / em nossas vozes vai crescendo / um novo hino à liberdade». Não era anseio, apenas – era Programa.

Depois viria um canto-senha revolucionária com feições alentejanas, e as ruas seriam tomadas pelas armas da Revolução carregadas de povo. Nos dias logo a seguir àquela madrugada, Grândola Vila Morena não correria ainda afinada nas vozes das multidões retratadas nas páginas 112 a 122. O refrão que se entoa ali é «O Povo Unido Jamais Será Vencido» nascido no Chile da Unidade Popular, a rítmica da frase marcada pelos punhos levantados. As muitas canções viriam a seguir, aprendidas nos espetáculos de Canto Livre que ocupavam as praças e transbordavam para uma rádio que, a pouco e pouco, ia desistindo do reportório do chamado nacional-cançonetismo.

O canto de José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Manuel Freire, entre tantos mais, tinha passado do palco das coletividades de cultura e recreio para o espaço público, para as ondas da rádio e para as realizações de um PCP saído da clandestinidade e que, naqueles dias, inaugurou a prática (que se mantém) de mobilizar para a luta de massas a canção e a poesia.

Muitos nomes e muitas mais canções enchem as páginas que vão desde o Largo do Carmo (página 114) às barricadas de 28 de Setembro de 1974 e à vitória em 11 de Março de 1975 (página 124). A reacção reorganizava-se e as canções participavam no combate, no corpo dos comícios do PCP cujos cartazes ilustram as páginas de 100 Anos de Luta. Ao mesmo tempo, saltavam para os palcos dos comícios as cantigas populares ocultadas pela política cultural do fascismo, testemunhos do sentir colectivo do povo, desde a evocação do divino à luta pela posse popular dos baldios e o direito ao pão. O cancioneiro popular viria a ser, afinal (na sua ancestralidade), mais uma das Conquistas de Abril.

No caminho histórico da proposta de construção da sociedade socialista, cantam-se as nacionalizações, a Reforma Agrária, o Poder Popular, a luta que se adivinhava contra a reconstituição dos interesses económicos abalados pela luta de massas e pelos governos de Vasco Gonçalves. Num cancioneiro em que a palavra MFA é protagonista, o impulso dado pela canção do Grupo Outubro «Força, Força, Companheiro Vasco» (que o cartaz de João Abel Manta ilustra na página 111) assinala um tempo que fixou na memória da História os factos na sua tradução criativa.

100 Anos de Luta é a celebração de uma longa jornada, contada e ilustrada em todas as dimensões da vida do povo português e dos povos do mundo inteiro. A música surge, por isso, natural no seu desfolhar – desde o hino (porventura) cantado na sede da Associação dos Empregados de Escritório (Lisboa), em 6 de Março de 1021, até à entoação de A Internacional em 6 de Março de 2021, sob os milhares de bandeiras hasteadas em mais 100 terras portuguesas.

Página a página, todas as imagens do livro de capas vermelhas são o retrato de vozes que se foram juntando num coro de proposta, de combate, de afirmação, de conquista, de escrita coletiva da partitura lançada no futuro, de que 100 Anos de Luta é um belíssimo andamento.




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