Jovens nas ruas exigiram emprego, salário e estabilidade
Em Lisboa e no Porto, 25 de Março foi dia nacional de luta da juventude trabalhadora. Para dar força às reivindicações da Interjovem e do movimento sindical unitário, o combate vai continuar.
A luta vai prosseguir, na construção de um grande 1.º de Maio
Com esta jornada, a CGTP-IN e a sua organização de juventude trouxeram para a praça pública os problemas com que os trabalhadores jovens se confrontam no dia-a-dia, exigindo mudanças do patronato e do poder político.
O lema «Mais emprego, mais salários, mais estabilidade! Com coragem e confiança, lutar pelos nossos direitos» desmultiplicou-se nas faixas, pancartas e palavras de ordem, levadas da Praça dos Poveiros à Praça D. João I, no Porto, e do Campo Pequeno ao Ministério do Trabalho, em Lisboa, por jovens trabalhadores de todos os distritos e dos principais sectores de actividade.
As duas iniciativas concretizaram, nas actuais condições sanitárias, a manifestação nacional com que a Interjovem tem assinalado, desde 2006, o Dia Nacional da Juventude (28 de Março), a evocar a luta promovida pelo MUD Juvenil, em 1947, violentamente reprimida pela polícia fascista.
Esta data tem «um valor simbólico, histórico», que «ano após ano queremos projectar como um exemplo e um estímulo para as muitas lutas do presente e do futuro», como se afirma na intervenção da Interjovem, lida em Lisboa por Dinis Lourenço, coordenador nacional da organização, e no Porto por Inês Branco, da sua direcção.
«Queremos tempo!»
A par de «o aumento do salário é justo, urgente e necessário», «avançar, avançar, para os salários aumentar» ou «contra a exploração a luta é solução», na tarde de quinta-feira da semana passada os manifestantes gritaram «fim ao banco de horas, não ao trabalho de borla», «com precariedade não há natalidade», «quero tempo para fazer o que me apetecer».
Na resolução comum, aprovada no final de cada uma das acções, assinala-se que a luta dos jovens se dirige contra a política de sucessivos governos de PS, PSD e CDS, que«têm empurrado os jovens para os baixos salários, a precariedade, o desemprego e a exploração» e dirige-se uma saudação a«todos os trabalhadores e trabalhadoras, jovens e menos jovens, que com coragem e confiança têm lutado e resistido, a partir dos locais de trabalho, pelo aumento dos salários, em defesa do emprego, contra a precariedade e pelo emprego com direitos».
Para os jovens trabalhadores, «os impactos sociais e sanitários do surto epidémico da COVID-19 exigem do Governo uma resposta que vá ao fundo da questão e que impeça o aproveitamento que já está em curso, para aprofundar a exploração e o ataque aos direitos e liberdades».
Deste dia nacional de luta, na resolução ficaram expressas as principais reivindicações:
• Proibição dos despedimentos e defesa de emprego seguro e com direitos;
• Aumento geral dos salários, em 90 euros, e do salário mínimo nacional, para 850 euros;
• Fim da precariedade, garantindo que a um posto de trabalho permanente corresponda um trabalhador com vínculo efectivo;
• Fim dos horários desregulados e semana de 35 horas para todos, sem perda de retribuição;
• Efectivação dos direitos, nomeadamente de maternidade, paternidade e de trabalhador-estudante;
• Revogação das normas gravosas do Código do Trabalho, nomeadamente o período experimental (alargado para 180 dias para trabalhadores à procura do primeiro emprego), e reposição do princípio do tratamento mais favorável ao trabalhador;
• Reforço do investimento nos serviços públicos, nomeadamente no Serviço Nacional de Saúde;
• Condições de saúde e segurança nos locais de trabalho e nos transportes.
Ao afirmar o compromisso colectivo de «intensificar a luta nas empresas e locais de trabalho, por melhores condições de vida e de trabalho, pelas reivindicações específicas e gerais», de «trabalhar para sindicalizar e organizar nos sindicatos de classe da CGTP-IN» e de construir «uma grande jornada de luta no 1.º de Maio, Dia do Trabalhador, com a força e a vitalidade da juventude», na resolução ficou reiterado o apelo que já se ouvira nas intervenções da Interjovem, do coordenador da União dos Sindicatos do Porto, Tiago Oliveira, e da Secretária-geral da CGTP-IN.
Em Lisboa, Isabel Camarinha saudou «os mais de 3600 jovens que se juntaram aos sindicatos da CGTP-IN, neste ano em que comemoramos 50 anos de existência», e chamou a atenção para «a acção reivindicativa e a intervenção que temos de continuar e aumentar nas empresas e locais de trabalho», assegurando que «saímos desta jornada mais fortes para comemorar e defender Abril, os valores e direitos conquistados», e que «os jovens trabalhadores, unidos neste grande movimento sindical unitário da CGTP-IN, estarão na linha da frente da luta».
PCP profundamente solidário
Uma delegação do PCP, dirigida pelo Secretário-geral, saudou a chegada da manifestação, na Praça da Londres. Em declarações aos jornalistas, Jerónimo de Sousa declarou-se «profundamente solidário com esta juventude trabalhadora»e destacou que estava ali a decorrer, «de facto, uma grande manifestação», mostrando «uma força que transmite confiança de quem participa»nela.
Relevou«a particularidade de significar – e colocar como grande questão para a juventude portuguesa, particularmente a juventude trabalhadora – o combate contra a precariedade, uma chaga que atinge, particularmente, esta camada».
Jerónimo de Sousa lembrou que «a lei deveria consagrar, a cada posto de trabalho permanente, um contrato de trabalho efectivo», mas «a verdade é que se verifica, por parte das empresas, uma violência de esbulho de um direito fundamental que é o direito à segurança no emprego».
O Secretário-geral do PCP esteve acompanhado por João Frazão (da Comissão Política do Comité Central), Alma Rivera (do CC e deputada) eAna Gusmão (do CC).
Praças de jorna derrotadas
«Apresentam o trabalho nas plataformas digitais como sendo de grande modernidade, quando aquilo que vemos é a tecnologia a ser instrumentalizada para promover relações do século XIX, ao jeito das velhas praças de jorna», denunciou Isabel Camarinha, lembrando que estas foram derrotadas pela luta, que «pôs travão à exploração e à limitação de direitos impostas pelo fascismo».
A Secretária-geral da CGTP-IN registou que «sectores do capital têm saudades desse tempo e promovem projectos antidemocráticos, continuando a tentar fazer o ajuste de contas com o 25 de Abril». «A esses, reafirmamos que têm na CGTP-IN e nos trabalhadores uma força de resistência e luta, que nunca se vai confinar quando se trata de defender a liberdade, a democracia, os direitos laborais e sociais e a soberania nacional, pois estes são valores e princípios inseparáveis», concluiu.
Patronato carrega nos horários
«A juventude é atacada com os horários desregulados», denunciou-se na intervenção da Interjovem, notando que, «porque somos jovens e podemos aguentar, porque não temos filhos, por todas as desculpas e mais algumas, o patronato carrega em cima dos jovens com trabalho por turnos, trabalho nocturno e trabalho extraordinário, geralmente não pagando as devidas compensações».
Na realidade, «aproveitando mecanismos de desregulação dos horários, como os “bancos” de horas, cuja generalização o Governo de PS promoveu, o patronato usa e abusa do tempo livre dos jovens», mas «nós queremos aproveitar a nossa juventude», «queremos ter tempo para fazer desporto, para criar e usufruir da cultura, para conviver e viver», «queremos tempo para planear a nossa vida, para termos filhos e sermos pais e mães».