Num armazém do Alabama, o futuro
A luta dos trabalhadores dos armazéns da Amazon pelo direito a formar um sindicato transformou-se num símbolo do ressurgimento do sindicalismo de classe nos EUA. A coragem dos trabalhadores, maioritariamente afro-americanos, gerou uma onda de solidariedade que atravessou as fronteiras estaduais e forçou, este domingo, o novo inquilino da Casa Branca a tomar publicamente uma posição em defesa da liberdade sindical.
No centro do furacão estão cerca de 6000 trabalhadores do armazém de Bessemer, no Alabama, que, há um mês, enfrentam a gigantesca Amazon de Jeff Bezos. A desproporção de meios dispensa qualificativos: só no ano passado, em plena pandemia, a Amazon registou lucros de 22 mil milhões de dólares e o seu fundador viu a sua fortuna crescer para 183 mil milhões de dólares. Os trabalhadores de Bessemer, por seu turno, recebem 15 dólares à hora. O resultado desta desproporção foi uma tremenda campanha de assédio, ameaça e desinformação para persuadir os trabalhadores a não se sindicalizarem.
Os trabalhadores conotados com a causa sindical receberam ofertas em dinheiro para se calarem; SMS foram enviados para os telemóveis dos trabalhadores a explicar que os sindicatos «não servem para nada»; cartazes ameaçadores sobre o começo de uma «guerra com os sindicatos» foram afixados no local de trabalho. Ainda assim, um terço dos trabalhadores assinou o documento exigido por lei para pôr em marcha a votação que, até dia 28 de Março, dará aos trabalhadores da Amazon em Bessemer a escolha de formalizarem a adesão ao sindicato.
Em Fevereiro, houve importantes manifestações de solidariedade com os trabalhadores de Bessemer em mais de 50 cidades de 30 Estados e, no passado domingo, o próprio presidente dos EUA, Joe Biden, foi forçado a se posicionar contra a «intimidação, coerção, ameaças e propaganda anti-sindical», postura que não apaga, contudo, a clara opção de classe da nova administração. Trata-se, afinal, do mesmo presidente que, à semelhança de Trump, se recusa a subir para 15 dólares o salário mínimo federal e insiste em não incluir as necessidades dos trabalhadores nos estímulos económicos de resposta à pandemia.
Ainda assim, as declarações de Biden reflectem o desejo de uma parte do eleitorado do partido democrata de pertencer a um sindicato. Segundo o Instituto de Política Económica, metade dos trabalhadores dos EUA admite que gostava de pertencer a um sindicato, uma percentagem 400 vezes superior à taxa de sindicalização real daquele país. Se os trabalhadores da Amazon em Bessemer se decidirem sindicalizar, até dia 28 de Março, o seu exemplo de David contra Golias encontrará certamente eco em milhares de outras empresas e locais de trabalho, de costa a costa.