Ruído de passos

Correia da Fonseca

Nos últimos dias, ou talvez até antes deles, na televisão e também decerto fora dela tem sido referida a Direita política que o país conheceu durante décadas sob a forma supostamente leve de um fascismo entendido como «soft» se comparado com as versões alemãs e italiana. Não poderá dizer-se, é certo, que o regime que durante décadas oprimiu o povo português foi tão brutal quanto o hitleriano, mas parece claro que estas coisas não podem ser avaliadas ou medidas pelo número de campos de concentração eventualmente existentes. Por cá tivemos apenas um ou dois, por sinal instalados em colónias, mas houve a PIDE e Caxias, Peniche e o Limoeiro, as torturas e a vastíssima rede de escutas e informadores, nada que possamos sequer levemente esquecer. Quem porventura incorresse no lapso de equiparar regimes apenas na base de camisas e suas cores (negras, azuis, verdes…) estaria, é claro, no pleno domínio da asneira e da leviandade. Entenda-se, pois, que as ditaduras de direita e o enorme pacote de brutalidades que elas implicam são realidades consequentes a uma tomada do poder que visa perpetuar situações político-sociais injustas. E que, como aliás em muitas outras situações, também nesta muito mais vale prevenir que remediar.

Dar por eles

Como ensina uma velha fórmula, «mudam-se os tempos mudam-se as vontades», e acontece que mudam ainda muito mais coisas: muda também a aparência de alguns factores que permanecem imutáveis no essencial. Ainda assim há que atender a dados que podem funcionar como sintomas, e será o que acontece ainda que em ligeira medida com o ininterrupto «discurso» que a televisão derrama em nossas casas. Se prestarmos ao fenómeno a atenção adequada podemos talvez concluir, ou pelo menos suspeitar, que vem emergindo na TV, e decerto também fora dela, uma linguagem «de direita» que poderá não ser o efeito de alguma paternidade incógnita. Nem se dirá que esse eventual avanço resulta de alguma premeditação: como aliás é natural, em qualquer terreno onde se mova a direita avança quando sente ou verifica que o pode fazer, digamos que quando se sente «convidada». Tenhamos a paciência ou o cuidado de reparar no modo como a televisão nos «fala» e talvez detectemos sintomas. De uma doença, sim, ou quase: a maleita de “ler” a realidade com uma espécie de código ditado pela direita. Recorrendo ao uso de uma imagem, digamos que são os seus passos. Conhecendo até por via histórica como os seus passos podem ter consequências e são pesados (é característico que use botas), o melhor é dar por eles.




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