Monangambé

Manuel Pires da Rocha

Os povos nunca desistem do relato estético da sua vida

Distante vai, quase meio século depois do 25 de Abril, a retórica das «províncias ultramarinas» inscrita nos manuais de História do fascismo português. Se ilusões houvesse, vista Angola cá de longe, em 4 de Fevereiro de 1961 a realidade viria a impor-se realidade. Nesse dia, militantes do MPLA assaltavam a Cadeia de São Paulo e a Casa de Reclusão, em Luanda, decididos a libertar patriotas angolanos presos, fazendo estremecer a máquina colonialista.

E até um Diogo Cão de bronze iniciaria ali, sem o saber ainda, a viagem simbólica que o levaria, 14 anos depois, da praça de Luanda que agora leva o nome de 4 de Fevereiro à Fortaleza de São Miguel (onde Angola independente expõe alguma estatuária colonial). 4 de Fevereiro marcou o início de uma nova etapa da luta de libertação de Angola, a que o regime colonial fascista português reagiria com a maior brutalidade. Quanta poesia, quanta música se mobilizariam pela libertação de Angola naquele tempo em que Portugal foi também uma trincheira essencial da luta contra o colonialismo e o fascismo?

O colonialismo e o fascismo português arrumaram a Arte popular angolana (e também a portuguesa) no limbo da curiosidade pitoresca. É sabido, contudo, que os povos nunca desistem do relato estético da sua vida, estando provado ser também na Arte que os sonhos da Humanidade se materializam. E essa razão de ser – que desmente quem queira encontrar na arte hierarquias - é tão qualidade dos vissungos, cantos dos escravizados das lavras angolanas, como do Coro que Verdi escreveu para Nabucco. Arte é ferramenta, centelha que incendeia a realidade. Tanto, que o próprio Capital foi aprendendo a usar os seus códigos sedutores, para lhe subverter a vocação libertadora no fogo da luta de classes.

Também em Angola a milenar luta tinha os seus cantores. E se é certo que o fascismo português procurou inventar fórmulas musicais enquadradas no anúncio segundo o qual «do Minho a Timor somos todos portugueses», certo é, também, que desse logro não ficou grande lembrança. Os cenários, por muito belos que sejam, não sobrevivem à morte da encenação. Outra música angolana chegaria, porém, ao nosso tempo (para além dos produtos de consumo musical de conteúdo meloso que a vida acabará por depositar na caixa dos desperdícios), testemunha do movimento que converteria cinco séculos de território colonial num Estado soberano.

No ponto de encontro que as canções se gabam de ser, a literatura chega por vezes primeiro. Muitos dos autores dos poemas que viriam a ser incorporados na luta antifascista e anti-colonialista eram jovens militantes africanos (das diversas colónias) de passagem por Lisboa para a realização de estudos universitários. Alguns – entre os quais Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Francisco José Tenreiro e Mário Pinto de Andrade - virão a constituir o Centro de Estudos Africanos (CEA), em 1951, entretanto encerrado pelo regime fascista. Mas a atividade revolucionária logo seria retomada na Casa dos Estudantes do Império (CEI), criada pelo Estado colonialista para fortalecer a «mentalidade imperial e do sentimento da portugalidade entre os estudantes das colónias». Tem a História, como se sabe, seus caprichos, pelo que a Casa viria a acolher libertária disposição.

Ficou já dito que a canção está bem calhada para ser lugar de encontro do verso com a melodia. Assim foi em Monangambé (Contratado), poema de António Jacinto, primeiro, e só depois melodia que Rui Mingas compôs em 1960 para a sua própria voz. Monangambé é fala do contratado, que não se fica pela queixa do sofrimento que dos explorados é condição. Monangambé é já consciência de classe. Canção participante, por isso, no caminho que levou Angola a 11 de Novembro de 1975. Uma, belíssima, de muitas mais.


Monangambé

Naquela roça grande/ não tem chuva/ é o suor do meu rosto/ que rega as plantações;/ Naquela roça grande/ tem café maduro/ e aquele vermelho-cereja/ são gotas do meu sangue/ feitas seiva.//

O café vai ser torrado/ pisado, torturado,/ vai ficar negro,/ negro da cor do contratado.//

Negro da cor do contratado!/ Perguntem às aves que cantam,/ aos regatos de alegre serpentear/ e ao vento forte do sertão:/ Quem se levanta cedo?/ quem vai à tonga?/ Quem traz pela estrada longa/ a tipóia ou o cacho de dendém?/ Quem capina e em paga recebe desdém/ fuba podre, peixe podre,/ panos ruins, cinquenta angolares/ «porrada se refilares»?//

Quem?/ Quem faz o milho crescer/ e os laranjais florescer?/ - Quem?/ Quem dá dinheiro para o patrão comprar/ máquinas, carros, senhoras/ e cabeças de pretos para os motores?//

Quem faz o branco prosperar,/ ter barriga grande/ - ter dinheiro?/ - Quem?/ E as aves que cantam,/ os regatos de alegre serpentear/ e o vento forte do sertão/ responderão:/ - «Monangambééé...»//

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras/ Deixem-me beber maruvo/ e esquecer diluído/ nas minhas bebedeiras/ - «Monangambéé...»

 

António Jacinto (Poemas, 1961)




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