Sediados

Correia da Fonseca

O cerco continua: mantemo-nos pelo menos tendencialmente trancados em nossas casas enquanto, lá fora, o mundo ou pelo menos o país parecem sob ocupação pelo famigerado vírus, o protagonista da pandemia em curso e com poucos ou nenhuns sinais de nos dar tréguas. A televisão parece fazer alguma coisa para minorar o impacto dessa prisão domiciliária, mas nem ela é muito hábil nessa matéria nem nós, telespectadores de um modo geral pouco dados à arte difícil de procurar na TV o melhor que ela nos pode dar, saberemos conseguir abundantes êxitos nesse esforço. Ainda assim, porém, está longe de ser inviável o encontro com programas que mereçam o nosso tempo agora muito sobejante: procure-se na «2», que por vezes merece a reputação de ser «o canal cultural» (e não tão raramente quanto pode supor uma pré-avaliação excessivamente céptica); lembremo-nos talvez mais frequentemente das alternativas porventura oferecidas por canais estrangeiros. E, sobretudo, tenhamos sempre presente que a TV é muito, é inútil negá-lo e é porventura pateta esquecê-lo, mas não é tudo: os livros estarão por aí porventura esquecidos ou caídos em desuso, à nossa espera.

Um ecrã não basta

Aliás, seria talvez boa altura para que a televisão portuguesa, designadamente e sobretudo a RTP, empresa pública, lançasse uma ofensiva de chamamento à leitura. Ao fazê-lo, estaria a redimir-se pelo menos um pouco do seu pecado crónico de manter em relação ao livro e à leitura um distanciamento parecido com uma quase total indiferença: busque-se na programação da RTP uma rubrica de regular informação sobre livros e leituras e, a menos que procuremos em horários pouco frequentáveis, arriscamo-nos a desistir por cansaço. Há muitos, muitos anos, ainda a televisão portuguesa estava longe de ser a cores, um senhor chamado David, de apelido Mourão Ferreira, teve na TV pública um espaço em que nos falava de livros e leituras, com tais temas conseguindo bons níveis de audiência: David partiu, mas é difícil crer que o trabalho por ele cumprido com eficácia e brilho não pode agora ser retomado por mais ninguém. Entretanto, não são apenas os livros que estão à espera de um sucessor de DMF: é também a leitura como prática civilizada e fecunda que estará em causa. E assim ficará enquanto a RTP continuar a esquecer o que, em verdade, integra a sua panóplia de deveres: o de estimular a leitura. Porque, mesmo perante uma eventual e mirífica televisão óptima, olhar um ecrã não basta como alimento cultural.




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