«Temos razões para ter confiança!»
PROJECTO Jerónimo de Sousa concedeu uma entrevista ao Avante! sobre as eleições e a situação do País, transmitida na sexta-feira, 29, nos canais do Partido na Internet, e que hoje publicamos. Para lá da análise aos resultados eleitorais, falou-se das propostas do PCP para combater a COVID-19 e a crise económica e social e do significado de ser comunista em 2021.
O PCP tem um projecto fascinante, o fim da exploração do homem pelo homem
Passam hoje [sexta-feira] cinco dias sobre as eleições para Presidente da República. Que avaliação se pode fazer dos resultados e, particularmente, da candidatura de João Ferreira?
Por mais que o escondam, a verdade é que crescemos em percentagem e mantivemos praticamente o mesmo número de votos. Mesmo com particularidades, por exemplo o caso da Região Autónoma da Madeira, onde há cinco anos a candidatura de Edgar Silva – que é originário da Madeira – alcançou 22 mil votos. Obviamente, isto não foi repetido... Mas confirma e reforça a ideia que, de facto, crescemos num quadro em que mais 450 mil portugueses, em relação há cinco anos, não foram votar.
Creio que este é um elemento de análise importante. E não foi referido porque derrubaria toda a narrativa da perda eleitoral. E a verdade é esta: os resultados desmentem, mais uma vez, essa narrativa – e andamos nisto há 30 anos, o chamado declínio irreversíveldo PCP, quando não a morte, por parte de muitos comentadores de serviço.
Tese, aliás, em que o Rui Rio voltou a insistir, na noite eleitoral...
Eu creio que é um grito de alma. O que dói a Rio – e a sectores reacionários e do grande capital – é o progresso do PCP e a fuga de votos do PSD para a candidatura de Ventura e Tiago Mayan.
Outra questão em que se insistiu muito nessa noite eleitoral foi a ideia de o PCP ter perdido influência nos chamados bastiões. Que comentário te merece esta afirmação?
Isso é uma mistificação de décadas. Mistificação até é uma palavra demasiado bonita. Enfim, é a aldrabice do costume. Em rigor, os resultados desta candidatura são idênticos à candidatura de 2016. E é preciso recordar que em nenhum dos distritos alentejanos o PCP é, de há 30 anos a esta parte, a força maioritária.
E uma terceira ideia que considero importante: no tão badalado distrito de Portalegre, afinal, nós até crescemos – em termos reais, em termos de percentagem, em termos de votos. Portanto, consideramos que isto faz parte desta manipulação, mas percebe-se o desalento e esse grito de alma, designadamente de Rui Rio.
Mas não há de facto um grande crescimento, nomeadamente, do André Ventura nessas regiões onde o PCP, apesar de tudo, mantém uma forte influência?
É importante desmontar essa ardilosa relação com a prova dos números. Se olharmos para essas zonas concretas, concluímos facilmente que a verdadeira razão da votação em Ventura obedeceu à deslocação de votos claros do PSD. Onde Ventura tem mais expressão eleitoral, nessas regiões, é onde o presidente eleito, Marcelo Rebelo de Sousa, tem menor votação. Ou seja, houve uma deslocação significativa do PSD para a candidatura de Ventura, com todas as leituras que isto permite. A própria elevação dos resultados de João Ferreira nessas regiões demonstram que Ventura ganhou muitos votos, sim, mas não à candidatura de João Ferreira, muito pelo contrário.
Das eleições passemos para a campanha: como foi construir uma campanha eleitoral em tempo de pandemia e de estado de emergência?
Foram tempos muito exigentes, num quadro em que nós procurámos – e conseguimos – aliar o sentido de responsabilidade e o cumprimento das medidas de protecção sanitária com a própria campanha. Para a força que foi esta candidatura de João Ferreira, tal como para as campanhas do PCP e da CDU, há uma marca distintiva, que é o contacto directo, o esclarecimento, a grande acção de massas na rua, as arruadas, os desfiles, que apresentam uma dinâmica muito forte e que desta vez não pudemos fazer.
Tivemos de alterar os espaços e condicionar iniciativas que estavam agendadas, em conformidade com a situação pandémica. E isto foi, de facto, de uma grande exigência na mobilização e no esclarecimento. Mas creio que, no essencial, conseguimos fazê-lo, num quadro ainda de maior abstenção e de muitos que não puderam votar. Todos nós conhecemos alguém que estava confinado ou pressionado pela própria família. Outros encontravam-se em isolamento.
A «campanha do medo» fez vítimas, podíamos dizer, e nesse sentido consideramos que, neste contexto tão difícil, nós combatemos a promoção do medo e demos um contributo inestimável para que as eleições se mantivessem.
Falaste da «campanha do medo» e de alguns tentarem instilar o medo nestas eleições. Em que medida resultou?
Inevitavelmente condicionou muitos portugueses em relação ao exercício do voto. Ainda por cima, falamos de uma campanha que, num dado momento, derivou para a ideia de não haver eleições e de que era preciso rever a Constituição. A percentagem de votação foi a que foi, naturalmente, mas de repente toda a gente se calou em relação a essa matéria, demonstrando que era possível realizar as eleições em condições democráticas, dignas, demonstrando assim que no fundo o que queriam era abrir a porta à revisão constitucional, para conseguir outros objectivos que estavam para além destas eleições presidenciais.
A realidade demonstrou que votar era seguro?
O que se pretendia, no fundo, era que, com a proibição das eleições, se abrisse um processo de revisão constitucional, onde caberia essa questão das eleições e tudo aquilo que a direita e a extrema-direita preconizam em termos de maltratar a Constituição, desfigurá-la, descaracterizá-la, que é um sonho de décadas.
Fiquemos nessa questão da extrema-direita e dos projectos reaccionários, que tiveram expressão nestas eleições: em que medida é novo o chamado «voto reaccionário»?
Bom, não é novo, mas adiante direi. Nós não desvalorizamos os projectos da extrema-direita e tudo o que ela significa. Aliás, ninguém mais do que os comunistas, ao longo da sua história, tem a dura experiência desse confronto com a extrema-direita.
Mas é preciso não agigantar os seus resultados, na medida em que candidatos presidenciais com projectos reaccionários não foram os primeiros nem os segundos. Lembro-me de um, por exemplo, o Soares Carneiro [1980], que obteve quase metade dos votos. Não eram 11%, mas metade dos votos: ou seja, foi rés-vés Campo de Ourique para que tivessemos um Presidente da República claramente comprometido com a extrema-direita.
Concretizar o horizonte de esperança
aberto pela candidatura
Passadas as eleições, que passos e desafios tem o PCP pela frente?
Em primeiro lugar, o valor da candidatura de João Ferreira para a luta e o seu desenvolvimento. Aquele lema do horizonte de esperança significa que a candidatura abriu caminhos que têm de prosseguir e desenvolver-se. Desde a luta dos trabalhadores e do nosso povo, a convergência democrática, o trabalho político unitário com democratas e patriotas. E esta candidatura, por tudo o que fez no terreno, no concreto, nos debates, pode dar essa garantia de que se rasgam caminhos, que têm de ser trilhados.
Uma segunda ideia é a necessidade de uma resposta de que o País precisa, de uma política diferente, uma política alternativa, patriótica e de esquerda. Estes são, de facto, os dois grandes objectivos que nos animam...
Mas vivemos uma situação especial de crise sanitária, que requer respostas imediatas. Como encaras as dificuldades neste campo e o que é preciso fazer?
Em primeiro lugar, e reconhecendo isso, existem respostas a essa situação, designadamente as que decorrem das propostas apresentadas e aprovadas no Orçamento do Estado para 2021. Em primeiro lugar, uma questão incontornável, que é a necessidade de reforço do nosso Serviço Nacional de Saúde.
E quando falamos em reforço não é num sentido abstracto, é no sentido do reforço do financiamento, de medidas concretas que ainda estão por concretizar. Nomeadamente, o reforço de profissionais de saúde para criar melhores condições na rede de saúde pública, que continua muito depauperada, como a própria pandemia veio demonstrar.
Mas também a necessidade de reforço de camas e de profissionais de saúde de Cuidados Intensivos, tal como a contratação de centenas de médicos, de enfermeiros, de técnicos de saúde. Esta é uma primeira medida.
A segunda é a necessidade de medidas sanitárias nos transportes, nos locais de trabalho e também uma resposta à situação social.
Também ela grave...
Sim, é grave. Nós vemos preocupações em relação à imposição de medidas neste quadro sanitário, mas poucos se importam com isso. Estamos a falar do Governo e daqueles que proclamam mais medidas restritivas e depois não têm uma resposta, uma palavra, para aqueles dois milhões de trabalhadores que continuam a trabalhar todos os dias e que, no plano dos transportes, não têm as condições bastantes para se sentirem tranquilos em relação à sua saúde.
E também de medidas que, no plano social, estão colocadas: a necessidade de auxílio às micro, pequenas e médias empresas; o apoio ao teletrabalho, tendo em conta o drama dos trabalhadores que estão confinados ao teletrabalho com crianças pequenas, o que leva a um desgaste psicológico tremendo; e a necessidade de completar, por inteiro, os salários daqueles que têm o trabalho em casa e que têm de fazer o acompanhamento aos filhos. Em vez dos 60% que o Governo propõe, nós consideramos que deveria ser a 100%.
Dezenas de adesões ao Partido
e à JCP desde as eleições
Agora uma questão incontornável a pouco mais de um mês de o PCP comemorar 100 anos. O que é ser comunista em 2021?
Em primeiro lugar, é afirmar o projecto do PCP. Mas, se me permites uma reflexão, uma causa nunca morre enquanto existir quem a defenda. E hoje há milhões de seres humanos que continuam a lutar pelo ideal de libertação da exploração do homem pelo homem. Com dificuldades, contradições, perigos, mas existe um azimute, um caminho no sentido da construção de uma sociedade nova, da construção do socialismo, que ponha fim à exploração.
Eu, por exemplo, a melhor coisa que fiz na minha vida foi ter aderido ao PCP. Não só pela minha origem de classe, mas porque é um partido que encerra, de facto, um projecto fascinante de libertação da exploração do homem pelo homem, da construção de uma sociedade nova, do socialismo, e isso é uma causa tão grande, tão nobre, que acho que valeu a pena esta adesão.
Falámos de pandemia, de extrema-direita, disso tudo, mas pareces confiante no futuro...
Em primeiro lugar, já o tenho dito muitas vezes, é preciso fazer boa cara ao mau tempo. Sobre a confiança que referes, a convicção, é importante que se saiba que na noite das eleições e no dia seguinte foram dezenas e dezenas os jovens que aderiram à JCP e ao PCP. Num quadro tão apertado como foi esta batalha eleitoral, ver chegar gente nova e nova gente, isto dá ânimo, contrariando todos esses profetas da desgraça que andam aqui há mais de 30 anos a anunciar a morte sem ter o morto.
Nós temos razões para ter confiança. Como digo, é uma causa funda, é uma causa justa, um projecto libertador, na certeza de que também estamos a dar uma contribuição para a felicidade humana.