Microcinema e Macrocinema
A redução de escala é evidente na forma como o cinema é exibido, narrado e visto
Lusa
No decurso da história do cinema, os elementos cinemáticos de pequena escala foram habitualmente desprestigiados e relegados para um território alternativo e/ou marginal. Na esfera dominante incluíram-se, preferencialmente, elementos de grande dimensão, tais como complexos e pesados equipamentos, formatos de elevada resolução, vastas equipas, avultados orçamentos, a convencional duração do filme estabilizada na longa-metragem, a projeção em ecrã̃ gigante ou a audiência coletiva. Estes definiram os principais modos de produção, difusão e exibição do cinema e contribuíram para o delineamento do seu dispositivo e da sua gramática. A digitalização do cinema veio, contudo, criar espaço para a coexistência destas duas formulações. Várias das manifestações que daí emergiram passaram a privilegiar os elementos de pequena ou muito pequena escala.
Em 2004, num artigo científico que procurava avaliar as transformações suscitadas pela digitalização na criação e difusão de imagens em movimento, Jon Lewis declarava que o cinema estava a encolher de múltiplas formas. A redução de escala é hoje evidente na forma como o cinema é exibido – nas pequenas janelas do YouTube, nos ecrãs dos smartphones –, na forma como é narrado – em peças de curtíssima duração, com planos muito aproximados; no modo como é visto – rapidamente, nos breves intervalos da vida quotidiana. No que diz respeito à forma como é construído, a miniaturização é também óbvia. Os materiais são simplificados, de baixo custo, pequenos, móveis. Estas características conduzem à diminuição das equipas e de outros recursos aí implicados, à compressão do tempo de produção, à criação de atmosferas mais intimistas, ao depuramento dos resultados.
O caminho para a miniaturização do cinema foi algo anunciado e tentado desde a génese da digitalização. Little Movies, o trabalho artístico conceptual de Lev Manovich, confirmou-o no advento da digitalização (sobre este tópico veja-se o artigo publicado neste jornal a 8 de Abril de 2020 com o título O Cinema Web: os pequenos filmes do QuickTime). Após esta fase, veio a manifestar-se de forma cada vez mais acentuada e evidente. As câmaras (e restantes materiais) tornaram-se primeiro mais pequenas do que as nossas cabeças e depois invisíveis, como afirmou Leos Carax, cineasta e argumentista, através da personagem principal do seu filme, Holy Motors. Face a isto, foram criadas novas modalidades de escrita.
No momento presente, contudo, esta diminuição de escala parece ligar-se a um elemento contraditório. Em 2000, Lev Manovich escrevia um texto intitulado Macro-media and micro-media em que assinalava a coexistência futura das duas dimensões no campo dos media. Quer isto dizer que, não obstante o cenário de digitalização propiciar o surgimento de novas formas de produção de pequena escala e de a dimensão micro ser evidente nas suas diversas manifestações, os cada vez mais pequenos equipamentos permitem criar e aceder a registos de mais elevada resolução; simultaneamente, os canais dedicados inicialmente à exibição de breves segmentos de vídeo, como o YouTube, permitem agora a apresentação de objetos de longa duração; mais ainda, aos trabalhos amadores é concedida a hipótese de assemelharem as suas características técnicas e estéticas às dos profissionais; finalmente, as imagens em movimento são efémeras, fragmentadas mas, ao mesmo tempo, omnipresentes e ininterruptas.
Assim, pode considerar-se que, ao mesmo tempo que a produção cinemática do tempo do digital se aproxima da dimensão micro, identificando as suas vantagens e oportunidades, a mesma entende a necessidade de não abandonar totalmente as capacidades da dimensão macro.