O Punho, de Bernardo Santareno
O Punho é, ainda hoje, uma obra incómoda
A última fase da produção dramatúrgica de Bernardo Santareno, na qual se incluem as peças Português, Escritor, 45 anos de Idade; Os Marginais e a Revolução; Três Quadros de Revista e a sua derradeira peça O Punho, faz parte do período mais interventivo, social e politicamente relevante, da sua produção teatral.
O grande dramaturgo, o maior da nossa literatura dramática, liberto dos constrangimentos censórios (a censura e outras forças retrógradas e institucionais do fascismo, sempre tentaram evitar que os seus textos fossem representados), pôde dar, através dessas peças, voz aos perseguidos e injustiçados, a começar por seu pai, resistente antifascista, preso e torturado pelos verdugos de Salazar; às vítimas da usura capitalista e da servidão, aos marginalizados.
O teatro abertamente político de Bernardo Santareno, em que as questões da justiça social, das perseguições, da intolerância, do preconceito e do fanatismo, foram claramente tratadas em textos como A Traição do Padre Martinho, O Judeu e O Inferno.
O Punho, peça concluída em 1980, ano do falecimento de Santareno, um dos seus mais brilhantes títulos, manteve-se sem transposição cénica durante quatro décadas.
Embora entendamos que num país democrático e civilizado a sobranceira ignorância dos responsáveis pelo nosso teatro, face a esta peça, nos pareça absurdo, tal posicionamento explica-se por persistirem, embora nos doa afirmá-lo, preconceitos culturais, estéticos e ideológicos, que estarão no cerne deste e de outros, «alheamentos» em relação à obra de Santareno. Assim não pensou, e bem, a Escola de Mulheres.
Esperança
O Punho é, ainda hoje, uma obra incómoda: porque fala de interditos, da Reforma Agrária e da esperança que ela representou para milhares de trabalhadores do Alentejo; porque coloca em conflito franco e aberto a justeza social da luta pelo direito à terra por aqueles que nela trabalham; pelo excruciante jogo dialéctico entre as personagens principais (Maria do Sacramento, a criada/camponesa e D. Mafalda, a latifundiária), só possível pela capacidade discursiva, lírica e dramática do texto de Santareno; porque coloca a luta de classes no seu mais lídimo território, o da posse da terra (por herança ou doação feudal), e o direito daqueles que nela mourejam; os afectos: o sofrimento de Maria, que perdeu o marido nas malhas da emigração e o filho na Guerra Colonial; a moral: a patroa cujo o filho se passeia pelos quartéis de Lisboa, e o marido pelos casinos e camas das amantes.
Fernanda Lapa pegou neste poderoso e belo texto de Santareno, sublinhou as falas de Maria do Sacramento e D. Mafalda, limou as arestas de uma peça longa, emotiva e densa e concebeu para a sua implantação cénica um espaço amplo e despojado, em dois planos, para que o conflito entre contrários se erguesse na plenitude da sua força humana e histórica, e a luta, a fractura social que se estabelece entre os senhores da terra e os trabalhadores, funcionasse em território sem adornos, ilusões, ou escapatórias. Lapa acrescenta um Narrador (Ruy Malheiro) e um Coro, que canta (com música de Janita Salomé) e comenta a acção, como se a tragédia estivesse a acontecer num teatro grego, sob um tecto de trigo de belíssimo efeito visual e simbólico, concebido por Marta Fernandes da Silva.
Coube a Marta Lapa e Ruy Malheiro pegarem neste soberbo esboço, dirigir os actores e materializar, com arte e engenho, este memorável acontecimento cultural, que honra o nosso Teatro e homenageia a memória e obra de Bernardo Santareno e Fernanda Lapa.
Margarida Cardeal desenha de forma primorosa a «sua» Maria do Sacramento, na voz e no tom como sublinha a dor e a raiva, no modo intenso como diz o trágico; Maria d’ Aires, traça uma D. Mafalda sem mácula, sagaz e emotiva q.b., brutal na defesa do que lhe pertence; André Levy, faz, de modo certeiro, o cínico, o salafrário Dr. Gastão; Vítor Alves da Silva, é o trabalhador Saramago, com precisão e força interior – e ajuda, com a sua bela voz de tenor, o Coro nos momentos mais conseguidos e emotivos da acção.
O Punho é, no actual contexto da produção teatral, um espectáculo raro. A não perder!
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Escola de Mulheres – oficina de teatro – Clube Estefânia, Rua Alexandre Braga, nº. 24 - Lisboa