Resistência
Da Venezuela chegam notícias, e quem no-las traz é a televisão portuguesa, eco disciplinado de quem bem sabemos. Fala-nos ela, a «nossa» TV, com um implícito tom compungente, de um golpe falhado contra o governo de Caracas que continua a resistir às multiformes agressões directas e indirectas que são desferidas pelos Estados Unidos e seus satélites, entre estes se contando a União Europeia, onde o nosso país tem o seu lugar nem destacado nem honroso mas obviamente disciplinado. A UE, e por arrasto o nosso país, acha que o governo venezuelano não é suficientemente democrático para seu gosto, o que é curioso porque se recapitularmos uma imaginária lista dos seus afectos encontramos facilmente países e lugares cuja devoção à democracia se situa muito abaixo do duvidoso. Bem sabemos, porém, que os critérios da União Europeia em geral e da televisão portuguesa em particular são decisivamente condicionados por uma espécie de vento que sopra de Washington e seus arredores: se Washington é contra, a TV portuguesa é contra. E é suspeitável que por essa sintonia seja de algum modo recompensada.
O implícito comando
É claro que, como é compreensível e de facto inevitável, decorre dessa espécie de patrocínio «made in USA» que as informações que a televisão portuguesa nos presta acerca da Venezuela sejam de uma clara hostilidade de difícil compatibilização com as desejáveis boas relações a manter com o governo de um país onde labutam milhares de portugueses. A raiz dessa atitude é de uma evidência total: os Estados Unidos são contra, o governo português e todos os órgãos que dele dependem directa ou apenas remotamente seguem esse implícito comando, sobretudo se o alvo é um governo de esquerda que se atreve a rejeitar a ingerência e a múltipla exploração dos poderes norte-americanos. Contudo, ainda há quem se lembre de um princípio ético que pode designar-se por uma fórmula popular: ter vergonha na cara. Ao situarem-se em posição de frontal e nada dissimulada hostilidade para com a Venezuela e o seu governo, os «media» revelam a triste flexibilidade da sua coluna vertebral e o seu pendor para a obediência sem princípios mas com fins. E é provável, se não inevitável, que dessa obediência, com destaque para a que está a caracterizar a da RTP, a operadora pública que de algum modo nos representa, decorra um sentimento de vergonha que bem pode tocar cada cidadão português que assista ao que está a passar-se: propósitos de linchamento opinativo de um governo que está ao lado do seu povo contra a intrusão estrangeira; de um governo que mostra saber que a palavra «pátria» tem um conteúdo. Também e talvez mais ainda quando esse poder estrangeiro tem a sua sede em Washington, e pelos vistos a rejeição é então um imperdoável pecado mortal.