Páginas de crítica e transformação social
A poesia, a ilustração, o cinema têm um papel a desempenhar na transformação social
1. Em Lá Longe o Fogo, a poesia de João Pedro Mésseder percorria, com atento e crítico discurso, as feridas, os desertos de lixo, sangue e bombas, que a usura imperial vai espalhando pelo mundo, através da sua mão ou por intermediários de conveniência, arregimentados ao sabor dos interesses estratégicos do momento.
Neste novo livro, Mésseder, junto com o traço cúmplice de Ana Biscaia e extenso de sinais que ampliam, na subjectividade da sua formulação, a amarga denúncia que os poemas transportam.
O primeiro poema deste livro fala-nos da perda, do que na geografia de Gaza desapareceu do olhar daqueles que teimam em habitar a sua própria terra. Diz-nos das colinas, do poço, da casa, do primeiro filho – de tudo o que nos prende ao chão nosso, a oliveira, a figueira, os ciprestes... Às linhas do horizonte que o olhar magoado de quem habita um espaço quotidianamente usurpado pelo terror, percepciona desolado.
A paisagem que o olhar já não reconhece, a memória confusa nesse tempo que se oprime e esvai entre um breve respirar e as bombas da manhã seguinte. O corpo a que a ganância roubou alicerces, como às casas, que se transfigura, porque dele, corpo, a substância do horror lhe devorou as casas. De outros roubos, dos afectos adiados, do olhar das meninas perdido no desamparo dos dias; do Natal das crianças numa Palestina cercada por muros e arame farpado, onde Chovem tiros, caem bombas,/chega o míssil do avião; na Cisjordânia onde as armas e os sentidos da luta são desiguais e onde A funda já está vazia, inútil arma contra os mísseis lançados do outro lado dos muros. A funda é mais que um gesto, quase pueril, de revolta, é a vontade firme de um povo que por virtude de muito ser banido/e ser queimado,// E do muito querer um estado/erguido sobre terra devastada, não desiste de ter direito a ser livre, a olhar o horizonte e saber que esse chão, esse sol, esse mar lhes pertence.
Mas só nos resta aprender com uma menina,/esta menina com seus seios em botão,/que chega dos confins da memória/e crava uma bandeira rubra e preta, branca e verde/num montículo de pedras e poeira.
2. Com o livro de Sérgio Dias Branco, O trabalho das imagens, estamos perante uma colectânea de notáveis ensaios publicados pelo autor em revistas da especialidade, estudos universitários, comunicações e conferências, em que são apresentadas, e desenvolvidas com rigor analítico, algumas das teorias contemporâneas sobre cinema e as diversas formas críticas da sua abordagem. Modo de definir o olhar que sobre os objectos fílmicos, a arte das imagens e seus conteúdos, hoje temos.
Habituados a ler Marx apenas como um teórico das doutrinas económicas, sem prolongar o entendimento à sua complexidade, às ideias subjacentes sobre a realidade das vastas actividades humanas, que estão muito para além dessa primordial componente filosófica, dado que o marxismo não se atém apenas a essa vertente metodológica, mas vai cruzar-se com outras disciplinas dos saberes e das artes, enquanto laboratório privilegiado de um método de análise dos conflitos existentes na sociedade capitalista, estabelecendo como horizonte a emancipação da situação geral de exploração humana.
Naturalmente, o Cinema, como as outras artes produzidas e criadas pelo homem, num determinado tempo e espaço histórico e geográfico, e com as ferramentas que possui, ou são postas ao seu dispor para as concretizar, não foge às contradições e interacções, às dinâmicas e constrangimentos políticos e sociais, ao contexto histórico, em que essas obras se concretizam.
Não podemos hoje ver os filmes de Serguéi Eisenstein, O Couraçado Potemkine ou A Greve, ou Apocalipse Now, de Copolla, ou um filme vietnamita sobre as guerras de libertação, mesmo que condicionadas pelas diversas componentes conceptuais e estéticas que as estruturam, sem termos em conta a realidade histórica que elas reflectem, e a ideologia que lhes subjaz.
É dessa realidade conceptual e dialéctica, da análise marxista transportada para a crítica da arte cinematográfica, que este livro trata de forma arguta, contribuindo para entendimento da ideologia conservadora e regressiva que se atrela à pós-modernidade, em defesa de um cinema que reflicta o entendimento crítico do mundo contemporâneo, progressista e transformador: da vida, da arte, da sociedade.
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A Quem Pertence a Linha do Horizonte?, de João Pedro Mésseder e Ana Bicaia – Página a Página
O Trabalho das imagens – estudos sobre cinema e marxismo, de Sérgio Dias Branco – Página a Página