O formato Digital Video e a digitalização do cinema fora do contexto industrial (II)
O formato DV permitiu revilatizar financeira e tecnicamente o cinema independente
Cineastas independentes, como os fundadores do movimento cinematográfico dinamarquês Dogma 95, Thomas Vinterberg e Lars Von Trier; o alemão Wim Wenders; o iraniano Abbas Kiarostami; a taiwanesa Shu Lea Cheang; o britânico Mike Figgis; os estadunidenses Bennett Miller, Harmony Korine, Hal Hartley, Spike Lee, Gary Winick, Richard Linklater e Miguel Arteta (porto-riquenho a trabalhar nos EUA); a vietnamita Trinh T. Minh-há; ou os franceses Agnès Varda (belga, radicada em França), Eric Rohmer ou Jean Luc Godard, encontraram nas câmaras DV, surgidas nos anos 1990, uma forma de revitalizar financeiramente – e fundamentalmente técnica, estética e eticamente – o seu cinema.
Se se destacam aqui estes nomes é porque os mesmos são autores de alguns dos primeiros filmes independentes, com estreia comercial, a obter reconhecimento pelo registo digital. Associados a estes autores e a este contexto são frequentemente referidos os seguintes filmes aqui apresentados cronologicamente: O Sabor da Cereja (T'am e Guilass, Abbas Kiarostami, 1997), A Festa (Festen, Thomas Vinterberg, 1998); Os Idiotas (Idiotern, Lars Von Trier, 1998); The Cruise (Bennett Miller, 1998); The Book of Life (Hal Hartley, 1998); Buena Vista Social Club (Wim Wenders, 1999); Julien Donkey-Boy (Harmony Korine, 1999); Os Respigadores e a Respigadora (Les Glaneurs et la Glaneuse, Agnés Varda, 2000); I.K.U. (Shu Lea Cheang, 2000); Chuck and Buck (Miguel Arteta, 2000); Timecode (Mike Figgis, 2000); Bamboozled (Spike Lee, 2000); Precocemente Apaixonado (Tadpole, Gary Winick, 2000); Tape (Richard Linklater, 2001); The Fourth Dimension (Trinh T. Minh-ha, 2001); A Inglesa e o Duque (L’anglaise et le Duc, Eric Rohmer, 2001); Elogio do Amor (Éloge de l’Amour, Jean-Luc Godard, 2001).
Pioneiros
O pioneirismo no registo digital tem sido assinalado com a estreia comercial, em 1998, da obra inaugural do movimento Dogma 95, o já referido filme A Festa – longa-metragem filmada integralmente com a Sony PC-7E, uma das primeiras câmaras MiniDV, concebida para utilização doméstica – e com as várias outras obras antes mencionadas. O cenário assim definido deu origem à criação da Independent Digital Entertainment (InDigEnt), uma pequena produtora independente, fundada em 1999 pelo cineasta Gary Winick. Inspirado pelo trabalho do Dogma 95, esta incentivou a conceção de projetos que pudessem tirar partido das características particulares da tecnologia MiniDV. A vida da empresa não foi longa, tendo a mesma encerrado em 2007, após constatado o facto de a sua tecnologia de base se ter tornado obsoleta.
Estas experiências, que foram replicadas ou reinventadas pelo cinema de Hollywood, contribuíram para gerar alterações na forma de pensar e criar o cinema contemporâneo.
A produção cinematográfica foi-se assumindo, gradualmente, como predominantemente digital passando a exibir um grande ecletismo nas ferramentas de escrita e nos resultados estéticos e narrativos. Para o desenvolvimento deste trajeto contribuiu o surgimento, a partir de 2005, de equipamentos eletrónicos de baixo custo, elevada qualidade, simples utilização e acessibilidade, capazes de captar (e de transmitir e exibir) imagens em movimento, tais como leitores de música e telemóveis, e o aparecimento, a partir de 2008, de novas câmaras pouco dispendiosas e de elevada resolução, de entre as quais se destacam as câmaras fotográficas Digital Single-Lens Reflex (DSLR), aptas a registar vídeo de alta definição.