Pereira Presidente do PAIGC
O PAIGC confunde-se com o povo
Domingos Simões Pereira é presidente do PAIGC e sê-lo-ia também da República da Guiné-Bissau não fosse a usurpação do poder por outro candidato, apoiado pelos militares e por países como o Senegal. Ao Avante!, deu conta da situação que se vive no país e manifestou a sua confiança no povo guineense para repor a normalidade democrática.
Qual a situação política na Guiné-Bissau, depois da imposição de um novo presidente e governo?
Quando não se consegue realizar eleições livres, justas e transparentes, estamos a pôr em causa todo o edifício da democracia. Neste caso, o Supremo Tribunal de Justiça apontou irregularidades e mandou corrigi-las, mas foi descredibilizado nessa sua competência, sendo uma estrutura internacional, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), à margem de todo o processo regular e democrático a declarar vencedor um dos candidatos. E é já com este no poder, depois de ter assaltado o Palácio Presidencial com o apoio das Forças Armadas, que todo o processo se desenvolve.
Como explicar esta situação?
Há duas razões. A primeira é global e prende-se com uma espécie de movimento contra os partidos históricos e, no caso, o PAIGC, que fez um percurso para a independência diferente de todos os outros movimentos africanos. E depois há a situação específica da Guiné-Bissau, onde confluem diversos interesses. Nós disputamos uma plataforma económica com o Senegal, e quando este país é chamado a resolver uma disputa eleitoral na Guiné-Bissau, obviamente (e o presidente do Senegal não o esconde!) que tem uma preferência, porque acha que o outro candidato responde aos seus interesses.
Nada explica que a CEDEAO, em vez de criar condições para que as instituições da República possam deliberar em absoluta liberdade, se substitua a essas instituições. E o posicionamento do governo português deixou-nos estupefactos. Não esperávamos compreensão, mas pelo menos um maior conhecimento da situação. Mas Portugal tem o direito de tomar as posições que bem entender…
Há notícias de que quadros do PAIGC estão a ser perseguidos e, em alguns casos, presos…
Não são notícias, são realidades. Um deputado foi sequestrado e espancado e outros dois surgiram na Assembleia Nacional Popular acompanhados por homens armados. Dois ex-governantes do PAIGC foram presos por motivos absurdos e chegaram a colocar armas numa viatura em que seguia um dirigente do partido para o levarem preso. Forças policiais e militares entraram na sede do PAIGC quando iniciávamos as celebrações do Setembro Vitorioso. Querem arrumar o PAIGC.
Que caminhos vê o PAIGC para retomar a ordem constitucional e democrática e um rumo de desenvolvimento soberano?
O PAIGC é um partido muito grande, que se confunde com o povo e sabe que tudo começa com a informação e sensibilização do povo. Tantos anos de instabilidade instalaram círculos de interesse que não querem que as leis funcionem, pois só assim conseguem chegar ao poder. Mas nunca estivemos tão perto de ter um país normal, estável, de paz. Quando o povo perceber o que está em disputa e que é a sua liberdade que pretendem pôr em causa, agirá! E aí alcançaremos a normalidade.