Eles e os seus remédios
Na RTP1 e a meio da tarde, uma senhora decerto excelente, ao balcão de uma farmácia, falava dos que não têm dinheiro para comprar os medicamentos que lhes são receitados. E acrescentava: alguns deles nem são idosos. Desta informação complementar poderá depreender-se que é mais compreensível, se não mais aceitável, que sejam os idosos a não terem dinheiro bastante para essa despesa em princípio primordial que é a de comprarem os remédios que talvez os ajudem a recuperar a saúde perdida ou a minorar os achaques já crónicos. Mas o pequeno episódio talvez se insira num quadro mais amplo que corresponderá ao entendimento de que quanto aos idosos é mais entendível, se não mais aceitável, que as circunstâncias e os hábitos recusem o acesso a serviços e bens que são de usufruto normal para os cidadãos de menores níveis etários. Aparentemente, há em muitas cabecinhas o convencimento de que para os idosos, porque andam por cá há mais tempo, já caducou ou pelo menos enfraqueceu o direito a serem tratados como a generalidade da restante gente. E isso não se nota apenas ao balcão de uma concreta farmácia.
Talvez um começo
Uma das circunstâncias que reforçam a gravidade desse espírito, com perdão da palavra talvez excessiva neste contexto, é que no nosso país o número de idosos rondará os dois milhões, acontecendo que a maior parte deles integra a grande fracção de portugueses que se situa abaixo da linha imaginária que tecnicamente define o estado de pobreza. É claro que facilmente escrevemos uma palavra, «pobreza», mas dificilmente lhe associamos as situações concretas, sempre amargas e não poucas vezes terríveis que a caracterizam. Há dias, o senhor Presidente da República voltou a fazer uma ronda nocturna para visitar os chamados «sem abrigo» que de algum modo povoam as noites de Lisboa: foi um gesto de solidariedade, coisa apenas simbólica mas simpática. Não seria talvez má ideia que um destes dia o senhor Presidente aplicasse algum do seu tempo a conhecer como no país que de algum modo lhe está confiado vivem os velhos, a maioria deles, e averiguasse se não será necessário fazer alguma coisa em sua defesa. Por esse mundo fora, sobretudo para os lados do Oriente, sobrevive ainda um tradicional respeito pelos velhos e pela velhice que por cá talvez não passe da reminiscência de um passado talvez mais imaginado que realista. Não será sem significado que a televisão com alguma frequência nos dê notícias de velhos agredidos quer em suas casas quer nos locais por vezes quase sinistros que são designados por «lares». É certo: os velhos são uns chatos, andam por cá a empatar tudo. Mas não se alimentem projectos excessivos: é proibido exterminá-los. Para já, muitos deles não têm dinheiro para comprar os medicamentos de que precisam, como testemunhou a breve reportagem da televisão. Será um começo. Mas não a «solução final».