Propostas para o fim da oposição entre amador e profissional

Marta Pinho Alves

Os cineastas amadores surgiram sobretudo após a Segunda Guerra Mundial

Em breve, fazer filmes será tão fácil como escrever poemas e quase tão barato. Estes serão feitos em todo o lado e por qualquer pessoa. Os impérios do profissionalismo e dos grandes orçamentos estão a desmoronar-se.

Jonas Mekas, «On film troubadours», 1960

 

A minha grande expectativa é que, agora que estão disponíveis estas pequenas câmaras de vídeo 8 mm e afins, algumas pessoas que normalmente não fazem filmes comecem a fazê-los e que (...) subitamente, um dia, uma pequena rapariga gorda de Ohio se torne um novo Mozart (...) e faça um belo filme com a pequena câmara de vídeo do seu pai, e que definitivamente a chamada dimensão profissional dos filmes seja destruída. Para sempre.

Francis Ford Coppola, Corações das Trevas, 1991

 

Está hoje em curso uma tempestade tecnológica que terá́ como resultado a definitiva democratização do cinema. Pela primeira vez, qualquer um pode fazer filmes.

Lars Von Trier, e Thomas Vinterberg, «Dogme 95: the vow of chastity», 2005 [1995]

 

A expectativa do desmantelamento do binómio profissional/amador por via do acesso aos meios de produção cinemática não é exclusiva do momento presente. Esta manifestou-se em vários outros períodos, motivada por episódios de transformação tecnológica ocorridos no campo do cinema.

Mekas formulou a sua previsão no dealbar da década de 1960, na sequência da simplificação e embaratecimento da película amadora e semiprofissional, assim como do seu equipamento de registo, potenciados pelas novas vagas e pela vontade de inovação criativa; Coppola viu essa possibilidade no amplo alargamento do acesso ao vídeo analógico para utilização doméstica; Trier e Vinterberg assinalaram-na na génese da digitalização estendida ao contexto amador.

Segundo estes cineastas, fazer filmes deixaria de ser o privilégio de alguns com acesso a meios complexos e dispendiosos, para passar a estar disponível para todos. Mais ainda, estes acreditavam que o alargamento da esfera da produção cinemática poderia gerar não apenas mais participantes, mas novas visões estéticas e criativas. Mekas designava os novos intervenientes como «trovadores fílmicos» e Coppola via aí a possibilidade de emergência de novos criadores.

Finalmente acreditavam, ou desejavam, que este novo cenário pudesse obliterar em definitivo a clássica distinção imposta ao cinema, entre um domínio profissional e um outro, mantido quase sempre nos seus antípodas, amador. Não obstante estes anseios, a transformação foi permanecendo adiada.

A estabilização de um padrão de película amadora, em 1923, permitira que um mais elevado número de indivíduos não profissionais começasse a fazer filmes. Esta ampliação da esfera amadora não significou, contudo, que o amadorismo cinematográfico tivesse passado a ser uma atividade acessível à generalidade da população. Dispendiosa e algo complexa, a mesma permaneceu restrita a uma elite que tinha dinheiro e tempo para se lhe dedicar.

Foi a película de 8 mm e respetiva câmara (criada pela Eastman Kodak, em 1932) – materiais esses que, após a II Guerra Mundial, se tornaram os principais associados à prática amadora – que originam um crescimento dos cineastas amadores, dado o seu custo mais acessível. Posteriormente, o desenvolvimento do vídeo analógico veio contribuir para tornar o cinema amador numa atividade ainda mais comportável financeiramente e, por isso, viável para um grupo mais vasto. Mas esta tecnologia não esteve disponível para o público em geral desde o seu início. Apenas em meados dos anos 1960 – após mais de uma década em que apenas esteve acessível no contexto profissional, em particular no âmbito das grandes cadeias televisivas –, tendo evoluído para versões mais simplificadas e menos onerosas, pôde chegar aos consumidores.

(Continua)




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