Vozes de Mulher
«Elas cantam como se fizessem a grande sementeira da esperança»
Vozes nuas. Como hão-de ter sido as primordiais. Ar apenas – que enchendo o peito é vida e já a seguir vai ser som. Às vezes fio outras vezes meada, que é outra maneira de dizer polifonia, essa forma de desencontro que é o sangue da harmonia e foi o modo de cantar nos afazeres da vida dos campos de Portugal. No tempo em que o canto era parceiro do trabalho e da festa, era das mulheres a voz mais constante da paisagem musical deste país.
As sete mulheres de Segue-me à Capela conheceram-se em Coimbra, no GEFAC (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra), cultivando no meio do associativismo universitário o gosto pelo canto popular, mas foi em Aveiro que primeiro mostraram vozes e vontades de cantar a cappella, expressão que significa canto sem acompanhamento instrumental. E assim foi no início da vida do grupo – vozes só, sem mais do que palmas batidas ou um adufe que, na tradição portuguesa, é também instrumento de mulheres. Só depois chamariam ao palco as percussões que, trazidas por braços de um homem, viriam a somar às vozes, o som de peles de bicho, de paus, de bronze, de lata, por igual primordiais no mundo dos instrumentos.
Em 20 anos pisaram muitos palcos – e também o da Festa deste Avante! – e gravaram dois registos: Segue-me à Capela (2005) e San Joanices, Paganices e Outras Coisas de Mulher (2015). Neste último trabalho, Manuel Louzã Henriques deixou o texto que aqui se deixa a ler, metade apresentação, metade manifesto: «Elas cantam como se fizessem a grande sementeira da esperança, matriz de todas as sementeiras, temperada daquela ternura que lhes enriquece os olhos.
«Pena que por vezes se esqueçam de dar corda aos relógios e que o tempo se desfibre, pois que são elas as ordenadoras de todas as coisas, distribuidoras do pão, donas que são da enorme mesa da vida.
«Cantando, elas ensinam aos rios os caminhos do mar, já que são as parentes de todas as águas do mundo. Talvez tenha sido o murmúrio da água que ensinou as rolas a cantar, e estas passaram um pequeno cibo de ternura que a brisa aproveitou para transformar em música na garganta das mulheres.
«Cantando, também semeiam a beleza que lhes escorre do corpo, com os pés na terra a que pertencem, fazendo a troca profunda e o saber da fertilidade, em linguagem de flores e de promessas, ajustadas à fraternidade e à justa medida entre os humanos. Com os braços escorridos ao longo do corpo a que entanto se prendem mãos de crianças, penhores de graça e do futuro.
«Dizem que as rosas só choram quando lhes caem as pétalas, como aquelas a quem vai branqueando o cabelo, recusando-se a aceitar a lembrança para além do tempo. Apenas lhes pedimos que não esqueçam a cor dos lábios, aquela que as cerejas roubam ao sol.
«Diz-nos Herberto Hélder, que cedo sentiu o gelo da distância amarga, que para elas, mães, há que inventar a MÚSICA, a LOUCURA, e o MAR – há que reinventar as mães que cantam, símbolos de fraternidade universal e peso de todas as coisas.
«Estas mulheres são, elas, a ponta da linha em que nascem os bordados.
«Segui-las-ei à capela, ouvindo-as apenas.»
Ouçamo-las então, pelos muitos lados em que cantem heranças e polifonias de agora. Como ainda há pouco na Manifestação Nacional de Mulheres, em Lisboa, na jornada que foi um nó – um passo mais – desse grande bordado que são as lutas pelos direitos das mulheres.