Suspeitas e depois
Informa-nos a televisão, e aliás não apenas ela, que há no nosso país um certo número de juízes sob suspeita, tanto e de tal modo que o “Prós e Contras” da passada segunda-feira foi dedicado a esse tema. Dispensemo-nos, porém, da possível avaliação do programa e do que por lá aconteceu para abordar o assunto mais de largo, digamos assim, numa outra perspectiva que até certo ponto pode ambicionar-se mais pedagógica, passe a presunção. Comecemos por lembrar que os grandes «media» gostam da corrupção como assunto a abordar, adivinhando-se que esse gosto decorre do facto de a corrupção ser um tema que proporciona boas audiências, mas também que a escolha da corrupção como «material de trabalho informativo» funciona um pouco como implícito atestado de honestidade, até de honestidade militante, se é que a expressão cabe. Na verdade, a explícita ou implícita indignação perante casos de corrupção sugere que o indignado é honesto, o que cairá lindamente perante a sociedade em geral.
Argumento ou pretexto
Sucede, porém, mais qualquer coisa: a corrupção em contexto acusatório tem servido, e muito, como argumento legitimador de golpes de estado, sobretudo ou exclusivamente de golpes de estado de direita. Diversamente das insurreições de esquerda, sempre em maior ou menor grau impulsionadas pela indignação que as injustiças sociais geram, os golpes de direita gostam de se apresentar como vindo corrigir desmandos de natureza financeira perante os quais alegadamente virá ela, a virtuosa direita, impor a boa higiene e a ordem. É, compreensivelmente, um argumento com bom índice de eficácia no momento em que é apresentado, podendo perder-se-lhe o rasto pouco tempo depois, quando a «ordem nos espíritos e nas ruas» já não precise de justificações virtuosas de ordem financeira ou outra. Quem percorra uma lista de golpes de direita ou neo-coloniais perpetrados nas últimas décadas em diversas regiões do mundo poderá encontrar vários exemplos da utilização do pretexto anti-corrupção como justificativo. Assim, é adequado que perante um golpe que invoque a corrupção como sua legitimadora nos perguntemos o que se prepara para vir a seguir. E é também adequado que perante alguma eventual onda de denúncias anti-corrupção, sempre desejáveis quando fundamentadas e independentemente de podermos aplaudi-las, as examinemos perguntando se alguma secreta intenção as move.