PCP quer travar cedência de colecção que é património público para hotel em Alter do Chão
PATRIMÓNIO O PCP quer ver revertida a cedência de um conjunto de obras de arte para um futuro hotel Vila Galé em Alter do Chão, Portalegre. Um diploma pugnando por esse objectivo vai ser entregue no Parlamento.
Cedência de obras de arte para interesses privados gerou coro de protestos
O anúncio foi feito, dia 26, pela deputada comunista Ana Mesquita, que justificou o projecto de resolução da sua bancada baseando-se no princípio elementar de que o «património não é nem pode ser moeda de troca em qualquer negociata». Esta iniciativa do PCP surge na sequência de uma outra por si tomada: a chamada à AR da Ministra da Cultura para prestar esclarecimentos sobre o assunto.
Em causa está a autorização de cedência, ao abrigo do programa REVIVE, pela secretária de Estado Adjunta e do Património Cultural ao grupo Vila Galé, por 25 anos, de 50 peças da Colecção Rainer Daehnhardt, pertencentes ao Estado e incorporadas na reserva do Museu Nacional dos Coches.
«O que se exige é que este negócio ruinoso não avance e, mais ainda, que não possa concretizar-se a perspectiva aberta pela secretária de Estado desta cedência vir a ser “a primeira de várias”», afirmou Ana Mesquita, que levou o tema a plenário em declaração política em nome do PCP.
E fazendo eco das vozes que se insurgiram contra esta cedência de um acervo de obras depositado num museu público a um grupo hoteleiro privado – associações, sindicatos, investigadores -, assinalou que o caso foi encarado e classificado, entre outros epítetos, como «insólito, insultuoso, impensável e ilegal».
O grupo hoteleiro veio entretanto a público, em comunicado, dizer que a colecção estava em «estado deplorável e de abandono». «Que desfaçatez», reagiu a parlamentar comunista, não poupando na crítica: «Ficará bem melhor, acharão, a decorar as vistas para turistas ricos do que a servir de património vivo para estudo, divulgação, discussão, problematização, ou seja, benefício colectivo nas reservas de um museu público e integração na sua normal programação museológica».
No comunicado, o grupo Viola Galé diz ainda que a cedência visa «valorizar a oferta cultural do País». E não muito longe andou o argumento do deputado do PS Luís Capoula Santos, ao defender que aquele património foi adquirido pela Coudelaria «no período de 1995-2002» para ali ser exposto, «no contexto de um projecto de desenvolvimento regional», não para ser exposto em Lisboa.
«A política do Património não pode estar sujeita ou subordinada ao “mercado” e à política do turismo», contrapôs Ana Mesquita, insistindo na ideia de que o Património cultural não pode ser alienado ou ver alteradas as suas características, nomeadamente físicas e de usos, «apenas por mera vontade do governo e de interesses privados».
«O que se exige é o cumprimento cabal das responsabilidades do Estado na salvaguarda do património cultural, é a concretização de propostas que o PCP há muito defende de reforço do investimento, de um programa coerente e progressista para o património cultural, o fim do esbulho, privatização, concessão que o PS está a colocar em cima da mesa com medidas da natureza deste triste caso», rematou Ana Mesquita.