Do futuro que nos querem impor
Nos anos recentes, e com particular intensidade nos últimos meses, muito se tem falado acerca do futuro da União Europeia. O projecto é o seu relançamento, ou seja, continuar e aprofundar as políticas e matriz ideológica da UE. Mas a intenção de dar o próximo salto no processo de integração esbarra sempre de frente nos interesses dos povos e no sentimento de distanciamento da União Europeia e das suas políticas.
É pois necessária uma encenação que oculte os reais propósitos, doure a pílula e legitime o caminho a seguir. Para isso contribuiu o Parlamento Europeu na semana que passou, dando forma ao embuste que procura legitimar os objectivos de aprofundamento do processo de integração capitalista europeu. O caminho está traçado e os objectivos são claros. Aprofundar os três pilares de desenvolvimento da UE, o neoliberalismo, o federalismo e o militarismo.
E, por essa via, as políticas que já conhecemos de ataque aos direitos sociais, laborais e políticos dos trabalhadores e dos povos, de aprofundamento dos processos de privatização de sectores estratégicos e serviços públicos, de assalto à soberania dos Estados e asfixia do seu desenvolvimento em benefício das grandes potências e dos seus grupos económicos aglutinando interesses na esfera supranacional, de promoção de políticas securitárias que limitam direitos dos cidadãos e da política de militarização e guerra que visando o controlo estratégico de territórios e das suas riquezas impõe relações de domínio e destrói países inteiros.
Está lançada uma verdadeira farsa a que as instituições europeias chamam de Conferência do Futuro da Europa. Uma farsa que mascara os verdadeiros objectivos, que oculta o papel do eixo franco-alemão no esculpir a regra e esquadro todo o processo, de acordo com os seus interesses e os do grande capital. À enorme encenação que encherá o espaço mediático até meados de 2022 não faltará a aparência democrática que esconda a natureza antidemocrática da construção do processo de integração europeu.
Ouviremos à náusea a necessidade de participação e acompanhamento dos cidadãos da dita conferência e da constituição de ditos órgãos de participação burocratizada, parametrizada e limitada: a Sessão Plenária da Conferência, um Comité Diretor e um Conselho de Coordenação Executivo (orgãos onde participarão predominantemente elementos das instituições europeias, a que se somam, no primeiro, membros dos parlamentos nacionais e ditos parceiros sociais para dar um toque de legitimidade democrática) ou as chamadas Ágoras dos Cidadãos e Ágoras dos Jovens, onde a participação popular se esgota num formato de até 300 pessoas, com um mínimo de três por país. Ao longo de mais de dois anos, este embuste mediático será alimentado, e enquanto isso a discussão será meticulosamente conduzida para redundar nos objectivos previamente traçados, a institucionalização nos tratados do aprofundamento daqueles três pilares da UE.
Tal embuste, que contou com a firme denúncia e voto contra dos deputados do PCP, foi legitimado pela maioria do Parlamento Europeu com os votos favoráveis de PS, PSD, CDS, PAN e a abstenção do BE.