Novas armas, novos perigos

Frederico Carvalho

PAZ Neste final de década, que estamos a viver, agravam-se velhos conflitos e instabilidades no mundo à nossa volta, e outros surgem sob novas formas. Aos desastres de grandes proporções que se fazem sentir já e com crescente frequência e gravidade, outros desastres se juntam alimentados pelo projecto imperialista de domínio mundial que procura afirmar-se, embora com crescente dificuldade, recorrendo ao imenso poder militar de que dispõe.

Os partidários da Paz têm pela frente a tarefa exigente de chamar à luta em defesa da paz

É um projecto que não dispensa a guerra, declarada ou subversiva. Ao mesmo tempo assiste-se por toda a parte à revolta de massas que não reconhecem aos mandantes do império e aos seus mandados o direito de espoliação de vidas e bens a favor de uma insaciável minoria exploradora.

A comunicação social amestrada, os mainstream media, na expressão inglesa, braço armado ao serviço dos poderes estabelecidos e hoje globalizada graças ao acelerado progresso tecnológico, aí está para adormecer, desorientar e induzir a resignação nos espíritos. A informação é um campo de batalha em que importa envolvermo-nos lutando do lado certo. Entretanto o activismo cívico cresce e marca posição. Pela Paz, todos não somos demais!, é uma expressão feliz que faz, no momento actual, mais sentido do que nunca.

A luta contra as armas de destruição massiva e, muito especialmente, contra a arma nuclear que, a ser utilizada num confronto entre potências nucleares, mesmo de segunda linha, poderia pôr em causa o futuro da vida sobre a Terra, tem particular importância hoje quando se assiste a um recrudescimento da corrida aos armamentos, corrida que, aliás, com maior ou menor intensidade, sempre esteve presente no decurso dos últimos setenta anos.

A situação é hoje mais séria, pois têm vindo, paulatinamente, a ser desmantelados mecanismos de salvaguarda traduzidos em acordos assinados pelas duas maiores potências nucleares ― a União Soviética, depois Federação Russa, e os Estados Unidos da América. Foi em 2002 a denúncia unilateral pelos Estados Unidos do tratado Anti-Mísseis Balísticos (ABM) e, mais recentemente, em Agosto do ano passado, o abandono do tratado sobre as forças nucleares de alcance intermédio ― o Tratado INFi.

Neste caso, a pretexto de que a Federação Russa teria infringido as regras do acordo desenvolvendo um novo míssil com características técnicas incompatíveis com as disposições do tratado. Estranhamente, apenas três semanas depois da denúncia do tratado pela Casa Branca ter entrado em vigor, o exército americano procedeu com êxito, algures na Califórnia, a um ensaio de lançamento de um míssil de cruzeiro em condições proibidas pelo tratado. O ensaio foi visto com preocupação pela Rússia, pois sistemas de lançamento idênticos ao utilizado naquele ensaio estão posicionados próximo das suas fronteiras, na Polónia e na Roménia.

Hoje, o único tratado de limitação e controlo de armamentos nucleares entre a Federação Russa e os Estados Unidos da América que subsiste é o chamado New Start, assinado em 2011, com um prazo de vigência de dez anos. No Tratado, que expira daqui a um ano, está prevista a possibilidade de renovação por mais cinco anos. Se isso não acontecer, deixarão de existir quaisquer limites à dimensão e composição dos arsenais nucleares daqueles dois países.

Equilíbrios precários

No decurso dos últimos 70 anos, foi possível manter um equilíbrio de forças, ainda que precário, entre as duas principais potências nucleares. Quando terminou a segunda guerra mundial, em 1945, a União Soviética não dispunha da arma nuclear, tragicamente experimentada pelos americanos nesse ano em Hiroshima e Nagasaki. Num curtíssimo espaço de tempo, a URSS, devastada pela guerra, ao contrário dos Estados Unidos da América, seus supostos aliados, que no plano económico efectivamente prosperaram com a guerra, desenvolveu e efectuou em 1949 o primeiro ensaio de uma bomba atómica. Quatro anos mais tarde, em 1953, menos de um ano depois dos Estados Unidos o terem feito, efectuou o lançamento experimental de uma bomba de hidrogénio.

Sobre esta base construiu-se um equilíbrio instável que com altos e baixos, por vezes à beira da ruptura, perdurou, numa primeira fase, até à dissolução da URSS, mas que, de facto, se conseguiu manter até hoje. Equilíbrio instável, assente na doutrina apelidada de «destruição mútua assegurada», em inglês Mutually Assured Destruction ou MAD, tornada oficial por Robert McNamara então Secretário de Estado da Defesa na Administração Kennedy, no início dos anos sessenta do século passado, coincidindo com a chamada crise dos mísseis de Cuba.

Nessa altura a humanidade esteve à beira do desastre e, de algum modo, continuamos refém de interesses que por erro de cálculo ou infundada confiança acreditam ser possível desencadear e sair vencedor de um conflito nuclear.

Nos círculos mais agressivos do poder financeiro e militar norte-americano existe desde há muito essa perspectiva, que aparece reflectida em posições expressas por figuras influentes dos círculos dirigentes e mesmo quadros superiores militares. São posições que, em tons e contextos diversos aparecem reflectidas nos meios de comunicação social dominantes. Não faltam exemplos. Um editorial do Business Insider, de 21 de Julho de 2017, esclarecia os leitores sobre «as 3 razões pelas quais o massivo arsenal nuclear da América, na realidade torna o mundo mais seguro». Em 25 de Abril de 2014, o Washington Post escrevia que «a longo prazo, as guerras tornam-nos mais seguros e mais ricos». Em 9 de Maio de 2018 podia ler-se em The Globe and Mail que a «NATO e não a UE merece o Prémio Nobel da Paz»ii. No corpo do artigo afirmava-se aí que «a paz na Europa é uma dádiva da NATO em grande parte assegurada pelos militares norte-americanos e canadianos».

Com a denúncia unilateral pelos Estados Unidos dos tratados ABM e INF, desaparece, obviamente para as duas partes que os haviam assinado, a necessidade de respeitar um conjunto de obrigações que limitavam o desenvolvimento e a modernização de sistemas de armamento nuclear, agravando-se a natureza precária de um equilíbrio de forças que se vinha mantendo. Do mesmo passo abriu-se a porta à intensificação duma corrida armamentista que, de resto, como se disse, nunca fora interrompida. Trata-se pois de uma mudança de grau, não de qualidade.

Despesas e tecnologias

Importa nesta altura sublinhar a diferença abissal existente entre as despesas militares dos Estados Unidos e da Federação Russa que, entretanto, não tem correspondência nos resultados do esforço das partes no desenvolvimento de sistemas de armamento que em ambas estão em curso. Assim, a despesa militar global dos Estados Unidos da América aproxima-se hoje do valor astronómico de 1,3 milhões de milhões de dólares americanosiii. Este montante que é cerca de 6,5 vezes superior a toda a riqueza produzida em Portugal em 2019 (PIB nominal), afasta-se do valor a que é possível chegar pela análise dos números oficiais apresentados nos documentos oficiais da Administração norte-americana e que anda próximo do milhão de milhõesiv.

Em contrapartida, de acordo com os dados divulgados pelo Instituto Internacional Sueco de Investigação da Paz (SIPRI), a despesa militar da Federação Russa não ultrapassaria uma décima parte da despesa militar norte-americanav. Na entrevista citada, Michel Chossudovsky comenta o valor de 1,3 milhões de milhões de dólares nos seguintes termos: «(…) corta-se em todas as despesas sociais para financiar o complexo militar-industrial investindo em larga escala (…) num programa de armas nucleares sem qualquer utilidade: o único interesse (sic) de um tal programa seria destruir o planeta.» Entretanto, observadores qualificados vêm desde algum tempo emitindo a opinião de que com o acesso a tecnologias de ponta com potenciais aplicações militares, o pressuposto da superioridade tecnológica e militar do Ocidente, que foi pressuposto essencial nas passadas duas décadas, está posto em causavi.

Objectivos distintos

As duas principais potências nucleares têm no plano geopolítico objectivos e comportamentos distintos. Os Estados Unidos mostram-se empenhados, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em desequilibrar em seu favor a balança do poderio militar estratégico, em particular no plano dos sistemas de armamento nuclear. Para a Federação Russa, que herdou a experiência militar e grande parte da capacidade científica, técnica e organizativa da União Soviética, a manutenção de um equilíbrio estratégico é uma questão de sobrevivência.

Compreende-se que procure dotar-se dos meios humanos e materiais necessários para dar credibilidade a uma estratégia de dissuasão, preventiva de agressões externas. Por outro lado, para afastar as ameaças de guerra, exige-se não uma política de permanente agressividade, mas uma política de conciliação e de promoção de paz que só pode ter sucesso se for feita a partir de uma posição de força.

Entretanto, certas tecnologias emergentes em franco desenvolvimento, por vezes designadas como «tecnologias disruptivas», vêm transformando as condições dum equilíbrio de forças. Com efeito, a chave de um equilíbrio que dê credibilidade a um modelo de dissuasão eficaz reside na manutenção da capacidade de resposta a um primeiro ataque, isto é, a capacidade de suportar um ataque nuclear inimigo e de lhe dar resposta com um contra-ataque devastador.

Entretanto, os avanços no campo da informática e das tecnologias de informação e comunicação podem pôr em risco a operação ou a estabilidade de infra-estruturas vitais para o funcionamento das sociedades modernas. Em particular, um ciber ataque sofisticado pode, pela via da intrusão-pirata (hacking), bloquear os sistemas informáticos de comando e controlo das infra-estruturas militares nucleares de um adversário, tornando-os efectivamente inoperacionais. O modelo clássico de estabilidade num mundo nuclear pode, desta forma ou de outras, ser posto em causa por aplicações militares da inteligência artificial que as duas principais potências nucleares, mas também outras potências menores, estão empenhadas em desenvolver.

A situação internacional é instável e perigosa. Os partidários da Paz têm pela frente uma tarefa exigente: chamar à luta em defesa da Paz, alertando consciências para a situação que se vive, procurando identificar as suas origens e causas profundas.

_____________

iCf. Luz e sombra num mundo em mudança, Frederico Carvalho, Avante!” n.º 2384, 8 de Agosto de 2019

iiEstas informações foram colhidas na entrevista ao Prof. Michel Chossudovsky conduzida por Michael Welch, transcrita em Global Research, Dezembro, 29, 2019 (https://www.globalresearch.ca/global-war-on-humanity-americas-unceasing-pursuit-of-hegemony/5698569)

iiiVer ref. 2

ivCf. Kimberly Amadeo, “U.S. Military Budget: Components, Challenges and Growth”, The Balance, actualizado em 7 de Dezembro de 2019 (https://www.thebalance.com/u-s-military-budget-components-challenges-growth-3306320)

vDe acordo com outras fontes poderia ser «apenas»seis vezes inferior. Ver “Russian defense spending is much larger, and more sustainable than it seems”, Michael Kofman, May 3, 2019, Defense News (https://www.defensenews.com/opinion/commentary/2019/05/03/russian-defense-spending-is-much-larger-and-more-sustainable-than-it-seems/)

vi “The Military Balance 2016”, IISS-The International Institute for Strategic Studies, Press Release, 9 February 2016. Ver relatório de 2017 emhttps://www.iiss.org/en/publications/military%20balance/issues/the-military-balance-2017-b47b

viiPaul Craig Roberts, “One Day Tomorrow Won’t Arrive”, 28 de Outubro de 2017, (https://www.paulcraigroberts.org/2017/10/28/one-day-tomorrow-wont-arrive/)




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