Eles, isto é, nós

Correia da Fonseca

O mais recente «Fronteiras XXI» aplicou-se a falar dos velhos, e como seria de esperar, foi um programa cheio de bons sentimentos e de excelentes palavras para com os que já viveram um punhado de anos e em princípio já estão à espera de que essa sua experiência termine. Ainda assim, porém, porque até nas circunstâncias mais simples e mais simpáticas é preciso cuidar da forma, aconteceu que em muitos momentos as intervenções resvalaram para um certo tipo de excesso que talvez possa ser caracterizado como piegas. A questão é que a velhice não é uma desgraça e, ainda que nem sempre se consiga que seja confortável, não justifica comiserações nem eventuais sugestões de surpresa por ser aquilo que é: quem não morre novo arrisca-se a ficar velho, o que com alguma sorte corresponde a algum grau de realização pessoal que em tempos se desejou e acabou por ser conseguida. Neste quadro, não se justificam manifestações de surpresa perante a capacidade de idosos para continuarem a pensar e falar, a intervir de um modo ou de outro na vida colectiva. Mesmo que essa surpresa surja como forma de aplauso e admiração. Ser velho (ou, como parece que os bons modos recomendam, «idoso») não é um defeito nem uma doença, embora prenuncie um desenlace indesejável.

Por exemplo

Ao que consta, houve um tempo em que ser velho era uma situação que suscitava não apenas atenções, mas também respeito. Um especial tratamento dos velhos, atento e respeitoso, poderá talvez manter-se em certas zonas do mundo actual, designadamente no Oriente, como pode ser testemunhado por quem visite essa área do mundo. Quando a televisão nos dá notícias da violência doméstica que por cá parece ser prática frequente se não generalizada, muitas vezes nos informa de que os velhos são alvo frequente dessa prática, porventura porque são «difíceis de aturar», talvez porque muitos deles «dão trabalho». É óbvio que os velhos vão sobrevivendo com défices vários, mas ainda assim há áreas onde continuam à frente dos que ainda não chegaram a velhos: por exemplo, no mesmo nível de integração social os velhos leêm mais, acontecendo que ler (jornais e não só) é saber mais. Por tudo isto e decerto por muito mais, bem se justifica que um programa de TV com lugar importante na «grelha» de programações se ocupe dos velhos, do modo como são tratados, de como muitas vezes são desrespeitados. Foi, pelo menos em parte, o que «Fronteiras XXI» fez. É claro que fez bem.




Mais artigos de: Argumentos

Lições que a luta nos dá

O Avante! já nos trouxe a notícia da luta desses bravos operários do Grupo Frederico Fortunato, Lda, com fábricas em Guimarães e Paredes de Coura, que produzem, entre outras, as marcas de calçado Kyaia e Foreva. A empresa onde, ao longo de décadas, os trabalhadores faziam uma pequena pausa...

O levantamento operário de 18 de Janeiro de 1934

A primeira metade dos anos 30 do século XX foi, em Portugal, um tempo de chumbo. A ditadura militar instaurada com o golpe de 28 de Maio de 1926 cedo começou a dar lugar ao fascismo. À supressão das liberdades e direitos fundamentais – associação, reunião, manifestação, greve, imprensa, etc. –...