É uma decisão política

José Augusto

Os Jogos Olímpicos são uma competição entre atletas e não entre países

Nikita Simonian é o vice-presidente da União de Futebol da Rússia. Tem 93 anos e é ele que mexe os cordelinhos do desporto-rei naquele território, vastíssimo, da ex-URSS. O presidente do organismo, muito mais novo, chama-se Alexander Diukov, director-geral da Gazprom Neft, empresa poderosa ligada aos combustíveis e patrocinadora da equipa nacional de futebol russa. Chegou há pouco ao dirigismo desportivo.

Como se sabe, a Comissão Executiva da Agência Mundial Antidopagem (AMA) decidiu, no passado dia 7, afastar a Rússia dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, bem como de outras competições desportivas importantes, como o «mundial» de futebol do Qatar de 2022. Trata-se, sem dúvida, da punição mais dura alguma vez imposta a um comité olímpico.

Entretanto, altos dirigentes de Moscovo e Pequim defendem que esta questão não deve ser politizada e muitas federações desportivas negam-se a transferir de local campeonatos já programadas. Um periodista de El Diario Vasco, Iñigo Goñi Iradi, sublinha que o desporto se converteu em mais uma ferramenta para «denegrir a imagem» da Rússia na arena internacional.

No olimpismo não pode
haver punições colectivas

A sanção avançou depois da AMA ter concluído que os dados fornecidos pela Rússia para fechar o chamado caso de dopagem foram alterados, já que a base de dados do Laboratório Antidopagem de Moscovo não coincidia totalmente com a cópia da base de dados que aquela agência mundial tinha em seu poder. Lembre-se que esta base de dados foi sacada da Rússia em 2015 por Grigori Rodchenkov, que encabeçava o laboratório antes de fugir para os Estados Unidos, onde obteve proteção e se tornou homem de confiança da AMA.

O primeiro-ministro também se pronunciou sobre o assunto. Para ele, as novas sanções da AMA são parte da «histeria anti-russa», que se tornou «crónica».

A Agência Antidopagen Russa tem 22 dias para recorrer da decisão junto do Tribunal Arbitral Desportivo, mas, segundo muitos especialistas, a teia está montada para tornar inúteis os esforços das autoridades desportivas russas.

Uma verdade tem de ser dita: os Jogos Olímpicos são uma competição entre atletas e não entre países. Nos Jogos de Moscovo de 1980, por exemplo, o gabinete de imprensa não dava aos jornalistas a classificação por países. Dizia-lhes: fornecemos todos os resultados e vocês façam as contas. Sancionar um comité olímpico não faz sentido. Punam-se, isso sim, os prevaricadores, por doping ou outra irregularidade qualquer. Absurdo, e dos grandes, é deixar que os atletas russos compitam em várias provas, nacionais e internacionais, e depois vedar-lhe as portas dos jogos olímpicos ou dos campeonatos do mundo. E pergunto eu: qual seria o ambiente entre atletas russos, entre estes, dirigentes, técnicos e adeptos, se realmente ficasse claramente provado que a maior parte dos desportistas ingeria substâncias dopantes para melhorar o seu desempenho? Seria insuportável para qualquer um, sobretudo, para os atletas de alta competição.

E, pelo que me é dado saber, o ambiente é saudável e as competições decorrem com toda a normalidade desde Moscovo a Vladivostoque.




Mais artigos de: Argumentos

Mais uma COP, a mesma mercantilização da natureza

A 25.ª Conferência da ONU sobre Alterações Climáticas (COP25) juntou entre 2 e 13 de Dezembro, em Madrid, os 197 países que assinam a Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima. O debate gravitou, uma vez mais, em torno do art. 6.º do Acordo de Paris e das regras do mercado de carbono, das metas...

Um número

Não nos ocupemos hoje do último Prós e Contras, onde um punhado de convidados obviamente sábios discreteou acerca do tempo, esse terrível inimigo que mais cedo ou mais tarde acabará por vencer-nos, e escolhamos um outro tipo de derrotas, as que surgem inesperadamente e talvez também mais cruelmente: as que decorrem de...