Os sons da Festa
Todos os caminhos vão dar à Carvalhesa, objecto sonoro central da Festa
Os primeiros sons da Festa espalham-se no ar ainda antes da sexta-feira de abertura. A partitura é a da percussão do martelo nos tubos que vão ser pilares dos edifícios da Festa, nas placas de madeira e de aglomerado que lhe hão-de ser paredes. Vão misturar-se com o som das aves do estuário, com as relas que por ali mostram seus talentos. E na hora das refeições, o refeitório é a caixa de ressonância das vozes dos muitos construtores da Festa.
Mas é a partir da primeira sexta-feira de cada Setembro que os sons se sobrepõem numa imensa teia sonora que vai durar três dias. A Festa é um país dentro de outro país, um território construído a partir do sonho, ali materializado em alternativa que, sendo a do projecto comunista, tem uma sonoridade própria também.
Ao longe, a Festa é um sussurro. Muitas mil vozes acrescentadas a muitas mil combinações de timbres, formando uma cidade sonora que é o bulício das ruas misturado com o ruído bom dos dias de festa. Longe, ainda. É preciso chegar mais perto para sentir os pregões dos vendedores ambulantes que, não sendo Festa ainda, são festa já, debruando o caminho que leva à porta de entrada onde se deseja «boa Festa, camarada», quando o som das palavras é o do lugar em que a fraternidade é Lei.
Há quem suba a Festa a partir da Porta da Quinta do Cabo; e quem a desça desde a Quinta da Princesa – duas maneiras de percorrer o caminho sonoro daquela cidade do Tejo onde se cruzam as vozes dos debates com a toada dos muitos palcos, as vozes das crianças (donas do mais belo bosque da Festa) com os incentivos do espaço desportivo. Venham de onde venham, todos os caminhos vão dar à Carvalhesa, objecto sonoro central da Festa, todos os anos repartido entre o instrumental do audiograma e os milhares de vozes que se lhe juntam em celebração. Acabado o tema há um acorde que vai soar ainda – o das vozes que se levantam numa exclamação acompanhada a aplausos. A seguir a quietude. E é então que de longe, do Espaço Internacional, chegam rumores de Milonga, batidas de Salsa, lamentos de Morna, o mundo todo nas tantas músicas que são mapa e idioma dos muitos povos que ali moram.
Dos palcos regionais chegam à avenida tangeres de cavaquinhos e concertinas, guitarras e violinos, bombos e baterias. Há Viras no Palco Arraial e Jazz no Café-Concerto. Na esplanada do Alentejo dois velhos amigos entoam uma moda (de Cante) justificando a crença de que dois alentejanos juntos são um coral alentejano. Três jovens gaiteiros – gaita, bombo e caixa – desfilam llaços nos lugares de Bragança. Pauliteiros não há (nem paulitos), servem as palmas.
Há, na Festa, um calendário de sonoridades. Na sexta-feira soa a orquestra em primeiro plano, envolta no rumor do espaço circundante. O sábado é da imensa manta de retalhos sonoros, do silêncio das exposições do Espaço Central à «voz» do Palco 25 de Abril enchendo a encosta de som. No domingo ribomba o Tocá Rufar logo antes do Comício – a pauta das intervenções sublinhada pela razão que quer ser ritmo, sendo palavra de ordem.
Quando a luta é alegria também, juntam-se as vontades em festa. E quando a festa é projecto de futuro – em cores, formas, palavras e sons – juntam-se os anseios na Festa. Segunda-feira o estuário vai amanhecer em silêncio. Mas a memória dos sons já está a sonhar a Festa (do Avante!) do ano que vem, com data já marcada a 4, 5 e 6 de Setembro.