Companheira

Correia da Fonseca

Fernando Lopes-Graça chamou-lhe «a nossa companheira» e é óbvio que ele sabia bem do que falava. No que diz respeito à presença da melhor música na programação da televisão portuguesa, não será justo dizer que ela está de todo ausente: antes será adequado dizer que, quando chega, quase sempre chega tarde e a difíceis horas. Dir-se-ia que a televisão, designadamente a RTP, quer situar a transmissão da música dita «clássica» em horários que não concorram com as novelas em transmissão em canais próprios ou concorrentes, o que talvez fosse simpático se não tendesse a obrigar os chamados melómanos (palavra pouco simpática que cheira um pouco a bolor) a abdicar de duas ou três horas de sono. O caso, de qualquer modo, é que a tal música acaba por chegar: não muitas vezes, é certo, mas fazendo prova de que não está completamente proscrita. E, chegados aqui, é preciso acentuar que a tal «melhor música» não é apenas a que geniais autores nos legaram, que alguma parte dessa música de facto «melhor» até se incluirá na chamada «música ligeira» ainda que não se caracterize por qualquer ligeireza: basta lembrar o José Afonso para o sabermos sem a sombra de qualquer dúvida. Mas não é de José Afonso que falamos ao notar que uma certa música só é transmitida depois de certas horas. Pois a música, para ser grande, não precisa de ser orquestral.

As lágrimas de Hitler

Em verdade, foi precisamente de grande música que nos falou um programa transmitido no passado domingo já a caminho das 24 horas que se intitulava «A Música, a
Guerra e a Revolução» e nos recordava uma frase que há alguns anos era muito ouvida e de então para cá veio caindo em desuso: «a cantiga é uma arma». Ao longo do seu visionamento, os telespectadores podem ter recordado alguma música que já se inclui na sua experiência pessoal (é manifestamente o caso do «Avante, camarada!») e outra por vezes já com longa história («A Marselhesa», «A Internacional»). Mas não se incorra no engano de supor que toda a música utilizada como arma de combate social é «de esquerda»: o nazismo alemão e o fascismo italiano tiveram as suas músicas e a extrema-direita espanhola continua a cantar o «Cara al Sol». A eficácia da arma que a música é não se confunde com uma legitimidade das causas que a mobilizam e o seu efeito sobre quem a ouve não é garantia: o programa da RTP informou-nos de que Hitler lacrimejava de comoção ao ouvir Wagner, ele que comandava o assassínio de milhares de crianças nos campos de extermínio para além de muitos outros crimes. Este exemplo recorda-nos que, como qualquer outra arma, a nossa excelente companheira música pode ser mobilizada para o serviço de causas péssimas. De onde a necessidade de avaliarmos as causas sem nos deixarmos seduzir pela música. Sem o mínimo prejuízo para o direito de amarmos a música que combate ao nosso lado.





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