Meia-hora nos States

Correia da Fonseca

No passado domingo, a RTP transmitiu no seu segundo canal (como seria de esperar) e em horário já perto da meia-noite (como lhe terá parecido conveniente), um documentário de perto de meia-hora acerca da situação dos negros na sociedade norte-americana. A partir de um projecto do escritor negro James Baldwin, o documentário «Eu não sou o teu negro» falava-nos da situação actual dos agora muitas vezes designados como afro-americanos, o que será mais elegante e mais discreto, embora seja certo que a despeito de alguns progressos de que poderá ter sido emblemática a eleição de um afro-americano para a presidência dos Estados Unidos a situação dos negros continua a ser ali pouco menos que dramática, muitas vezes trágica. Diversos elementos estatísticos dão-nos informação indirecta acerca desse facto, e um dos mais graves e porventura mais chocantes é a percentagem de condenações à morte havidas no conjunto dos estados norte-americanos: os negros lideram largamente essa sinistra estatística e esse facto não decorre decerto de serem mais «feios, porcos e maus», como poderá crer algum branco mais racista e bruto, mas terá a ver, sim, com as condições de vida mais agrestes a que os negros norte-americanos estão efectivamente condenados.

De costas

O documentário «Eu não sou o teu negro» foi portador de informações ou reflexões esclarecedoras e por vezes formuladas em sínteses muito eficazes para o nosso entendimento dos factos. Uma delas aconteceu quando nos lembrou de que os brancos norte-americanos quiseram os negros quando precisaram deles como mão-de-obra para a dura colheita do algodão mas agora estariam dispostos a devolvê-los a África, se possível, se não mesmo a aplicar-lhes o que na Europa foi designado por «solução final». É óbvio que essa eventualidade é de todo absurda, mas não o é a percepção de que uma mistura perigosa de aversão e receio se infiltra nos sentimentos da maioritária população dos Estados Unidos em relação à minoria negra ou, se preferirmos dizê-lo assim, afro-americana. Em verdade, subsiste ali uma tensão latente entre brancos e negros que por vezes se revela em pontuais incidentes entre polícias brancos e cidadãos afro-americanos, mas nada de dramaticamente grave, que se saiba. Porém, do que não se sabe só podemos conjecturar, e dessas eventuais conjecturas só pode resultar a certeza de que não apetecerá ser negro em terra norte-americana, a que tem à entrada do seu principal porto da costa leste, o de Nova Iorque, a estátua da Liberdade. Por sinal de costas viradas para terra.




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