Os outros

Correia da Fonseca

Perante a perspectiva de uma greve que poderá «secar» os postos de abastecimento de gasolina e gasóleo, a televisão preveniu-nos quanto às consequências desagradáveis que a situação teria para os que, tendo planeado férias implicando deslocação de carro, viram esse seu projecto ameaçado quer quanto à partida quer até quanto ao regresso, pois a greve foi anunciada sem limite temporal. É uma situação amarga para os que ao longo de um ano sonharam as férias como tempo de distensão, que nelas talvez já tenham investido o seu subsídio de férias e quase certamente mais algum dinheiro, e agora podem enfrentar uma situação eriçada de embaraços. Por isso se diz que algumas greves, como a que induz perturbações e ameaças ao abastecimento de carros conduzidos por quem não tem qualquer envolvimento no conflito que está na sua raiz, «são impopulares». Partir para férias de carro quase se transformou numa aposta arriscada. E é compreensível que nos sintamos solidários com quem corre esse risco.

Solver atrasos

Ainda assim, porém, é adequado e desejável que essa solidariedade circunstancial não nos faça esquecer uma outra que em verdade é pelo menos igualmente justificada e imperativa, além de ser permanente por não depender de eventuais crises energéticas ou outras: a solidariedade para com os que «os outros», os que não têm férias, esse tipo de férias que implica deslocação para longe do domicílio habitual. É certo que a situação de férias subsiste até por força de lei, mas o peculiar lazer que a saída de casa por uns dias e o travo quase de alguma aventura que essa deslocação proporcionam é insubstituível. O cerne da questão situa-se no facto infeliz de o dinheiro do subsídio de férias pago a muitos trabalhadores não estar disponível sequer para que um residente em Lisboa, por exemplo, leve a família a fazer umas sortidas diárias a Carcavelos: foi antecipadamente destinado a solver compromissos anteriormente contraídos, a enfrentar necessidades que puderam ser adiadas. Esses são os que pouco ou nada puderam sentir o específico sabor de férias que não se consubstanciam apenas no direito de não comparecer no emprego. Esses são os que, para seu mal, podem ficar indiferentes à existência ou não de gasolina e gasóleo nos postos de abastecimento. E talvez apenas gozem férias levando os filhos ao jardim mais próximo ou cavaqueando no café da esquina mais longamente do que é costume: cavaqueando porventura com outros trabalhadores que tenham férias idênticas.




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