José Afonso, artista inconformado e inconformista
A obra de José Afonso é de interesse nacional
Em 2 de Agosto de 1929 – faz por estes dias 90 anos – nascia em Aveiro José Afonso, poeta do mais doce lirismo e do mais claro manifesto, melodista genial. Escreveu canções para o tempo em que viveu, às vezes a favor outras vezes contra a ordem que a História foi estabelecendo, na linha de tempo que é a do desencontro dos interesses de classe e respectiva luta.
Obra vasta, variada, funcional como é sempre a obra dos artistas que escolhem os caminhos da identificação com o povo (dos povos) a que pertencem. Dos povos, ficou dito ali, porque em José Afonso tanto faz ser Cantar Alentejano como ser O Homem Novo Veio Da Mata – uma na seara, o outro no mato, guerrilheiros por igual nos dias em que, pelos nossos dias de paz, ofereceram o corpo às balas.
Todos os rótulos que lhe foram sendo pregados tiveram razão de ser: cantor de protesto, de intervenção, de canção política (como se todas o não fossem), e mais o que, em matéria adjectivante, bem tenha sido inventado. Talvez o mais acertado dos rótulos pudesse ser o «de resistência». Por ter cantado a resistência ao fascismo e, já sem fascismo, ter continuado a cantar a resistência ao conformismo (O Que Faz Falta), ao imperialismo (Os Fantoches De Kissinger), à perda de soberania (Década de Salomé). De resistência também pela insistência, desde o primeiro disco, na estilização da música popular (Cantigas do Maio, e tantas outras) ou na pura reprodução dos cantos populares rurais (Milho Verde, entre muitas) num gesto de afirmação dos valores estéticos (e éticos) que ali se proclamam.
José Afonso foi cantado por Zeca Afonso e por centenas de cantores de todas as idades. Cantado por todo o lado: no concerto, na manif, no acampamento, nas galerias da Assembleia da República, num assobio ocasional, nos trabalhos de acalentar. A obra de José Afonso faz parte das vivências de milhares de nós, da Fuzeta a Castro Laboreiro, da Horta à Ponta do Sol, neste lugar de muita gente, muitos costumes, muitos sabores, muitos dizeres a que chamamos Portugal (e mais além!). É objecto precisado de divulgação, de inscrição nos lugares de educação, de salvaguarda de interesses que não são os do «mercado» (que não se interessa pela obra de José Afonso).
Justifica-se, por isso, a iniciativa parlamentar do PCP de apresentação do Projeto de Resolução n.º 2262/XIII/4.ª, que «recomenda a classificação da obra de José Afonso como de interesse nacional». Trata-se de honrar a obra de José Afonso honrando uma Assembleia feita para ser o palco de acolhimento das vontades do povo. Soube-se recentemente que a obra de José Afonso se encontra esgotada, sem editora que assuma a sua reedição, o que torna ainda mais urgente e oportuna a iniciativa parlamentar do PCP, aprovada na Assembleia da República.
Que uma obra com a dimensão e o significado daquela que José Afonso criou tenha o valor de «interesse nacional» é coisa fácil de entender por quem encha os pulmões para cantar uma das muitas canções do Zeca, experimentando o gosto do encontro das palavras com as melodias, a decifragem da História, a vontade de projectar aquela obra no Futuro. Trata-se, afinal, de construir a Cidade / Sem muros nem ameias / Gente igual por dentro / Gente igual por fora / Onde a folha da palma / afaga a cantaria / Cidade do homem / Não do lobo, mas irmão / Capital da alegria.