Descobrir um museu

Manuel Augusto Araújo

Os museus são feitos por pessoas para pessoas

LUSA


Uma vez mais o PCP interpelou o Governo sobre a falta de trabalhadores na Educação, no Ensino Superior e na Cultura, o que compromete gravemente o serviço público. Uma intervenção em linha com muitas outras que têm sido feitas sobre os vários problemas que afectam essas áreas, que tem sido complementada com propostas legislativas direccionadas para os resolver. A quase todas o Governo tem dito nada. Algumas até chegou a adjectivá-las de extemporâneas, o que não deixa de ser extraordinário pelas conhecidas e reconhecidas carências.

Na Cultura, como o PCP assinala, «nos museus, palácios e monumentos, a situação é considerada uma bomba de relógio». Os museus nacionais vivem em condições humanas e financeiras insuficientes, desempenhando as suas funções devido ao enorme esforço, dedicação e imaginação dos seus funcionários, que enfrentam a ausência de políticas que nem sequer são realistas no quadro de um contexto social-financeiro em que são submetidos aos constrangimentos impostos pela União Europeia para que se cumpram as metas do défice, o que é inaceitável, compromete o desenvolvimento do País e, entre muitas outras consequências, é corrosiva para a qualidade do serviço público, sendo a área da Cultura uma das mais afectadas.

Nesse quadro catastrófico, uma classificação mais que justa, são de referir e sublinhar as iniciativas que os museus realizam no quadro da precariedade que lhes é imposta.

A exposição Museu das Descobertas, no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), é uma dessas iniciativas. O título é provocatório quando está em curso o debate da rotulagem de um possível futuro museu dedicado às viagens de expansão marítima. Título provocatório que se denega imediatamente ao verificar-se que a viagem é para descobrir o MNAA, para se perceber como funciona um museu, como a colecção é construída, qual a função de um museu, que relações estabelece com os seus congéneres nacionais e internacionais.

A exposição é antecedida por um vídeo em que é apresentada a equipa do museu, dos funcionários visíveis, que se vão encontrando quando é percorrido, aos invisíveis que trabalham nas salas a que o público não tem acesso ou que trabalham fora das horas do seu funcionamento. Com diz o seu actual director, «os museus são feitos por pessoas para as pessoas», o que só vem reforçar a importância e oportunidade das iniciativas parlamentares do PCP.

Passado esse prefácio entra-se na exposição em que são expostas 120 peças de pintura, escultura, tecidos, mobiliário, joalharia, por vezes apoiadas por vídeos informativos. Estão distribuídas por várias salas com designações que enunciam os seus conteúdos: Contemplar, Preservar-Estudar-Comunicar, Religar, Desvendar, Restaurar, Salvaguardar, Doar, Circular, Projectar e Rastrear. Reserva algumas surpresas.

Na primeira sala, em ambiente obscurecido apenas uma peça, a escultura do séc VII Bodhisattva Maitreya, proveniente da Coreia ou do Japão, tem a intenção evidente de tornar essa sala numa sala manifesto contra a proliferação das hordas que invadem os museus mais interessadas nas selfies que em se deter a contemplar as obras de arte. Será curioso conhecer até que ponto o objectivo foi alcançado. Outra das surpresas é o acesso à Capela das Albertas, que está a ser restaurada, trabalho que os visitantes podem ver, admirando a sua bela azulejaria azul. Mas a grande surpresa é a exposição no seu todo, o modo como está organizada com novos modos de ver obras conhecidas, a maneira como contribui para pensar o conceito de museu. Um desafio aliciante que não se deve perder.

……………………………………..

Museu das Descobertas
MNAA – Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
De terça a domingo, das 10h00 às 18h00
Até 29 de setembro




Mais artigos de: Argumentos

A escrita comprometida de Orlando da Costa

Orlando da Costa, (1929-2006) uma das figuras singulares da segunda geração neo-realista, inicia a sua carreira literária com três interessantes livros de poesia, A Estrada e a Voz (1951); Os Olhos Sem Fronteira (1953) e Sete Odes do Canto Comum (1955). Seguir-se-iam dois romances que...

Suspeitas, suspeita

  Durante alguns dias, a televisão portuguesa forneceu-nos diversas notícias (uma ou outra vez até apenas na dimensão de rumores) acerca de irregularidades mais ou menos graves em diversas autarquias: foram informações que a dada altura quase tomaram a intensidade de epidemia. É claro que o dever de informar e o direito...