Suspeitas, suspeita

Correia da Fonseca

 

Durante alguns dias, a televisão portuguesa forneceu-nos diversas notícias (uma ou outra vez até apenas na dimensão de rumores) acerca de irregularidades mais ou menos graves em diversas autarquias: foram informações que a dada altura quase tomaram a intensidade de epidemia. É claro que o dever de informar e o direito dos cidadãos a serem informados justificam-nas largamente. Não obstante, a relativa concentração de informações deste tipo, talvez consequente a um acrescido esforço investigatório, talvez resultante de mera coincidência, pode fazer pensar um ou outro cidadão mais desconfiado. É que lá para os princípios do Outono vão acontecer eleições legislativas e não será absurdo admitir que um esforço no sentido de multiplicar denúncias de irregularidades em algumas autarquias, por vezes de apenas suspeitas, pode estar relacionado com essas previstas votações. Não é nada que surpreenda: sabe-se que o País já entrou em pré-campanha eleitoral. É claro que situações destas permitem sempre o recurso a escassas provas e o uso de suspeitas injustas, mas também se sabe, porque a chamada sabedoria popular no-lo recorda, que em tempo de guerra não se limpam armas. Acontecendo que muito combate político não se distingue especialmente pela limpeza das armas utilizadas.

 

Com Outubro à vista

 

Não se quer sugerir aqui, nem sequer minimamente, a existência de uma espécie de orientação com lastro político nas notícias prestadas pela televisão: será aliás relevante acentuar que, na maioria dos casos, tudo ou quase tudo está ainda nas fases de investigação, de suspeita ou de denúncia. Contudo foram longas notícias na TV. Entende-se o (ou um) motivo: a televisão é gulosa de escândalos, e supostos ou suspeitos escândalos são para ela guloseimas preciosas. A este quadro poderá acrescentar-se, porém, um factor mais sério: um elevado número de telenotícias em que nos é dada (boa ou má) conta de irregularidades de vária gravidade em autarquias diversas tendem a resultar em algum desprestígio do Poder Local, assim crivado de suspeições. Não é óbvio, longe disso, que esteja em curso uma intencional operação televisiva visando o que é talvez o mais prestigiado poder democrático decorrente de Abril, mas o efeito é provável e a suspeita é possível. Pelo que se torna forçoso registá-la.




Mais artigos de: Argumentos

A escrita comprometida de Orlando da Costa

Orlando da Costa, (1929-2006) uma das figuras singulares da segunda geração neo-realista, inicia a sua carreira literária com três interessantes livros de poesia, A Estrada e a Voz (1951); Os Olhos Sem Fronteira (1953) e Sete Odes do Canto Comum (1955). Seguir-se-iam dois romances que...

Descobrir um museu

LUSA Uma vez mais o PCP interpelou o Governo sobre a falta de trabalhadores na Educação, no Ensino Superior e na Cultura, o que compromete gravemente o serviço público. Uma intervenção em linha com muitas outras que têm sido feitas sobre os vários problemas que afectam essas áreas, que tem...