Moléculas da Liberdade

António Santos

Finalmente a Casa Branca refere-se oficialmente ao petróleo como «moléculas da liberdade» e ao gás natural como «gás da liberdade». Numa conferência de imprensa em Bruxelas, na semana passada, o secretário do Departamento da Energia, Rick Perry, anunciou o objectivo de duplicar as exportações de hidrocarbonetos estado-unidenses para a Europa, procurando enfraquecer a posição de Moscovo: «mais uma vez, os EUA estão a entregar uma forma de liberdade ao continente europeu», explicou, contextualizando que «o Departamento de Energia está a fazer tudo o que está ao seu alcance para (…) permitir a exportação das moléculas da liberdade americana para o mundo».

Apanhando a boleia metafórica do seu superior, também o vice-secretário da Energia, Mark Menezes, fez saber que as novas explorações de gás ao largo da costa do Texas visam «espalhar o gás da liberdade por todo o mundo, oferecendo aos nossos aliados uma fonte de energia limpa e barata». A metáfora é tão feliz como útil. O único problema é que tem duas direcções: se o petróleo é «moléculas da liberdade» então é forçoso que também se clarifique que sempre que, no passado, os EUA se referiram à «liberdade», referiam-se tão somente a petróleo.

Um exercício rápido demonstra as enormes consequências que este mero erro de interpretação poética tem causado. Mas, substituindo nos discursos dos presidentes dos EUA «liberdade» por «moléculas da liberdade», que, graças ao Departamento da Energia, já sabemos oficialmente o que quer dizer, tudo fica mais claro.

No dia 29 deste mês, o vice-presidente, Mike Pence, garantiu, num tweet, a Juan Gauidó que «a América vai continuar a apoiá-lo até as moléculas da liberdade serem restauradas!». Já a 30 de Janeiro, Trump tinha anunciado «grandes protestos por toda a Venezuela contra Maduro! A luta pelas moléculas da liberdade começou!». A 18 de Setembro, Trump exigia «a devolução da democracia e das partículas da liberdade na Venezuela, e queremos que seja rápido!».

Já George W. Bush, quando declarou o início da guerra do Iraque, em 2003, tinha feito o mesmo aviso: «Vamos defender as nossas partículas da liberdade. Vamos levar as partículas da liberdade a outros e vamos prevalecer». Recuando dois anos, antes de invadir o Afeganistão, Bush também prometera «não hesitar nesta guerra pelas partículas da liberdade».

Agora só falta que Trump também comece a chamar «soro da democracia» à especulação financeira e pode ser que muito boa gente perceba quais são as verdadeiras preocupações do imperialismo.

 



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