Pequenos Delírios Domésticos de Ana Margarida de Carvalho
É no território da inquietação e do humanismo que os grandes autores se reconhecem
O primeiro romance de Ana Margarida de Carvalho, Que Importa a Fúria do Mar, é um texto sensível, inteligente e brilhante sobre a nossa memória colectiva, sobre um tempo de resistência ao pavor e à desordem, sobre aqueles que, através das planuras do amor e do sonho – essa capacidade de transcendência que leva as humanas gentes a todas as transgressões, até à subversão dos dogmas –, conseguiu sobreviver a um tempo de algozes amestrados, aos medos, às limitações mais vis exercidas sobre um ser humano nos tempos modernos. Abençoados os que dizem não, porque deles deveria ser o reino da terra, diz-nos José Saramago na História do Cerco de Lisboa. A alguns, os que tiveram coragem de dizer não, esse reino improvável chamou-se Tarrafal, Peniche, Aljube. E é do mais terrível chão desse universo da abjecção, o Tarrafal, que o primeiro romance de Ana Margarida de Carvalho prodigiosamente nos fala.
O segundo romance da autora, Não se pode morar nos olhos de um gato, escrito num português soberbo e raro, a um tempo solar e cáustico, que andava arredio da nossa literatura desde Aquilino, Torga, Saramago, Maria Velho da Costa, que se passeia ufano, no Capítulo Primeiro, por Gil Vicente, esteio modelar deste romance, que viaja pelo mais obscuro e silente da nossa condição em conjunções de abismo, de caverna, de esconjuros. Que percorre esse corpo escuso das palavras como se novas, retiradas do chão pela raiz, palavras que, dilaceradas como costas de escravos, transportam ressonâncias de búzio, fístulas, sal, a água pútrida dos porões dos navios negreiros, pus e sangue, um olho redondo, atento e desesperado de baleia, os medos e as marcas dos chicotes de um tempo de outras barbáries.
Afinal, a literatura portuguesa contemporânea também consegue debruçar-se, sem constrangimentos visíveis, sobre o nosso passado recente, sobre o período fascista (cujo, por muitas voltas que a semântica procrie, mesmo que na serenidade rural das suas botas cardadas e das homílias dominicais, afinal existiu), mas também sobre as derivas contemporâneas, e desse investimento surtir obra enxuta e, no processo narrativo, algo inesperado e estimulante.
É também o que acontece com a incursão da autora pelos caminhos difíceis, contidos na progressão narrativa, elíptica, de um livro de contos.
Depois de dois títulos que remetem para o nosso passado, um mais próximo, outro longínquo, mas ambos ainda presentes nos traços singulares e sensitivos que invadem a nossa forma de ser e de olhar o mundo, Ana Margarida de Carvalho em Pequenos Delírios Caseiros (título de uma canção de Sérgio Godinho), traz-nos o real quotidiano, as questões do nosso tempo e a inquieta perplexidade com que o habitamos.
Logo no conto que abre o livro, Chão Zero, essa ferida dos nossos dias, os incêndios de Outubro de 2017, está vigorosamente presente, num texto em que a nostalgia dá lugar a um lúcido grito de revolta contra a burocracia que coarcta o território dos afectos: Como me desvio para atalhos, se todas as minhas correntes sanguíneas vão ter aí... Tenho de reportar a minha infância ardida e dão-me um formulário da Protecção Civil. Tenho de preservar a memória dos meus avós, dos avós dos meus avós, e pedem-me apólices, metros quadrados e cadernetas prediais.
Os contos seguintes, separados por uma advertência, Quase tudo o que ler a partir daqui é mentira, e pelo poema Apfelstrudel, Aprende comigo, filha,/que nem o caos deve ser perturbado/e a vida voa baixinho, irão abordar as questões mais prementes, direi universais, que hoje tornam instável, grave e perigoso este nosso mundo,
sob o jugo capitalista: a miséria, as migrações, os bairros miseráveis, o conflito israelo-palestiniano, a barbárie que avança incontrolável Olho por olho, dente por dente, vida por morte; os barcos à deriva num mar de morte, barcos que são, no Mediterrâneo, cemitério de corpos vivos; diz-nos da indiferença, do egoísmo de uma Europa fortaleza onde, para além dos corpos, morre uma cultura milenar da qual somos beneficiários e herdeiros, e se perderá na inconsciência colectiva, entre destroços de barcos fenícios e carcaças de animais extintos, no medo que os populismos, a retórica fascizante vêm, sem ética nem vergonha, inculcando nas massas.
O verbo cáustico, precioso e límpido de Ana Margarida de Carvalho regressa com um livro intenso que nos desafia, em discurso apodíctico e sereno, a questionar o nosso tempo, que dele transporta as grandes interrogações civilizacionais. E é neste território, da lisura cívica, da inquietação e do humanismo, que os grandes autores se reconhecem.