Manobras no Índico
Os Estados Unidos ofereceram-se para «ajudar» Moçambique a combater os grupos armados que actuam numa faixa da província nortenha de Cabo Delgado. Ali estão em curso projectos de exploração offshore de gás natural com o envolvimento das companhias Anadarko e ExxonMobil, entre outras empresas.
A oferta surgiu no início desta semana através de declarações do encarregado de negócios da embaixada dos EUA em Maputo, Bryan Hunt. «Estamos disponíveis e gostaríamos de ajudar Moçambique neste processo», afirmou o diplomata, citado pela Angop e Lusa.
Desde Outubro de 2017 que se registam nos distritos de Mocímboa da Praia e Palma, na zona onde operam as duas petrolíferas texanas, ataques a instalações policiais e alvos civis, atribuídos a grupos armados ligados a uma seita radical islâmica. Os ataques causaram mais de uma centena e meia de mortes, entre população, forças de segurança e atacantes.
Já em Janeiro de 2019 – a alguns meses das eleições presidenciais e legislativas de Outubro – os ataques armados «chegaram pela primeira vez à cintura da região onde operam as multinacionais do gás, mais concretamente às proximidades do acampamento da Anadarko, na península de Afungi», no distrito de Palma, segundo a Deutsche Welle. No local decorrem obras para a instalação de uma fábrica de liquefação de gás e outras infra-estruturas, com capacidade para exportar 12 milhões de toneladas de gás por ano.
O anúncio da «disponibilidade» de ajuda de Washington foi feito à margem de um seminário na capital moçambicana, co-organizado pela embaixada norte-americana e pelo Centro Africano de Estudos Estratégicos, no quadro do exercício militar Cutlass Express 2019, que incluiu acções em Pemba, a capital provincial de Cabo Delgado.
O Cutlass Express é um exercício multinacional e a edição deste ano decorreu entre 28 de Janeiro e 7 de Fevereiro, ao largo de três países da África Oriental – Djibuti, Moçambique e Seychelles.
As manobras foram coordenadas pelo comando militar dos EUA para África (Africom) e nelas participaram forças dos Estados Unidos, Canadá, França, Portugal e Holanda, do lado ocidental, Comores, Djibuti, Quénia, Madagáscar, Maurícia, Moçambique, Seychelles, Somália e Tanzânia, da parte africana, e, ainda, da Índia.
O objectivo do exercício, dizem os EUA, foi «reforçar a cooperação multilateral entre as forças navais» que operam no Oceano Índico, centrando-se «no desenvolvimento de capacidades relacionadas com a identificação, abordagem e busca de embarcações suspeitas no mar». Tratou-se, acrescentam, em suma, de «promover a segurança nacional e regional na África Oriental».
Segundo o Africom, os países da costa oriental africana enfrentam «desafios como a pesca ilegal, o tráfico de armas, drogas e pessoas e a pirataria» pelo que os esforços dos EUA «ajudarão» a fazer do Índico ocidental «uma zona mais segura para o comércio marítimo, contribuindo para a prosperidade regional».
Afirmam que o seu objectivo visa fins altruístas, quando se sabe que na sua intervenção em passado recente no Iraque, na Líbia, na Síria, teve apenas em vista explorar as riquezas dos seus povos.