A violação

Correia da Fonseca

Nas re­la­ções entre es­tados havia, em prin­cípio aceite por todos, a regra da não-in­ge­rência. Era uma regra bo­nita e ci­vi­li­zada. Era também uma regra ín­tima de uma si­tu­ação que todos os países muito prezam que é a sua in­de­pen­dência. Por uma questão de hi­giene pú­blica in­ter­na­ci­onal, di­gamos assim, era uma regra que a ge­ne­ra­li­dade dos es­tados afir­mava as­sumir e de­fender, até porque isto de vi­olar re­gras de con­sen­sual jus­teza pode re­velar-se uma le­vi­an­dade con­tra­pro­du­cente, tudo de­pen­dendo da força do even­tual vi­o­lador e/​ou da cum­pli­ci­dade da cha­mada «co­mu­ni­dade in­ter­na­ci­onal». Havia, pois, no ter­reno do con­vívio ci­vi­li­zado e de­cente entre es­tados, o prin­cípio da não-in­ge­rência nos as­suntos in­ternos de cada um deles, aliás com­ple­mento na­tural da sua in­de­pen­dência. Havia, mas acabou: a te­le­visão (sempre ela, mas nunca apenas ela) in­formou-nos de que esse prin­cípio tão sim­pá­tico ca­duca ime­di­a­ta­mente quando os Es­tados Unidos, nossos se­nhores, de­ter­minem a sua ca­du­ci­dade. E essa ca­du­ci­dade tem um alar­gado âm­bito que abrange todos quanto se in­cluem no Im­pério USA, isto é, pra­ti­ca­mente todo o mundo ci­vi­li­zado e também todo o mundo ainda por ci­vi­lizar, mais ex­tenso do que ge­ral­mente se julga.

Uma feia cor­rida

É o caso da Ve­ne­zuela. A Ve­ne­zuela é um país que por acaso ou pela von­tade dos céus foi pre­sen­teado com uma ri­queza: tem muito pe­tróleo, consta que as mai­ores re­servas mun­diais desse lí­quido feio, mal­chei­roso mas muito es­ti­mado. Assim, poder-se-ia dizer que a Ve­ne­zuela é um país rico ou, pelo menos, bem re­me­diado. Acon­tecia, porém, que o país seria rico mas que o seu povo era pobre, muito pobre, porque não podia usar o pe­tróleo em seu pro­veito: o pe­tróleo ve­ne­zu­e­lano tinha des­tino mar­cado que não pas­sava pela me­lhoria de vida do povo. E foi assim até que um dia um mi­litar de ape­lido Chavez pensou que entre a tal ri­queza e a grande po­breza em que se ar­ras­tava a ge­ne­ra­li­dade do seu povo não devia haver ta­manha dis­tância. Tomou então as pro­vi­dên­cias ne­ces­sá­rias para que o pe­tróleo ve­ne­zu­e­lano, re­to­mado pelo Es­tado, me­lho­rasse de facto a vida de mi­lhares de ve­ne­zu­e­lanos por todo o país, não apenas na ca­pital, e em muitos as­pectos com in­clusão da des­pre­zada área cul­tural: foi o cha­vismo; foi também a luta de classes trans­for­mada em fe­rida aberta. E agora está acon­te­cendo que a «co­mu­ni­dade in­ter­na­ci­onal» li­de­rada por quem se sabe de­cidiu que o cha­vismo ou a he­rança dele têm de acabar, e já. Para tanto está aberto uma es­pécie de con­curso pú­blico trans­na­ci­onal para de­ter­minar qual o país que mais in­ten­sa­mente vai aplicar o «di­reito de in­ge­rência» agora ta­ci­ta­mente pro­cla­mado, isto é, o di­reito a vi­olar uma regra de ci­vi­li­zação ga­rante da paz e da boa con­vi­vência entre es­tados, e o nosso país está nessa cor­rida. Para que, no fim da es­tória, o pe­tróleo ve­ne­zu­e­lano volte a ser re­ti­rado ao povo da Ve­ne­zuela.




Mais artigos de: Argumentos

Leninegrado, o símbolo dos símbolos da resistência

O cerco de Leninegrado, o mais longo da História, estabelecido a 8 de Setembro de 1941, foi rompido pelo Exército Vermelho a 27 de Janeiro de 1944. Este episódio, um dos mais importantes para a derrota do nazi-fascismo na II Grande Guerra, fez há dias 75 anos. Foram quase 900 dias em que o...

A literatura com causas

A Literatura de causas, a Literatura capaz de expor e dialogar com os grandes problemas da contemporaneidade, a que reflecte um país e as suas idiossincrasias, as derivas culturais, políticas e sociais, e sobre essa realidade reflecte é, nos tempos que alguns pretendem regressivos,...