Lapidar
Desde 1976 que o PS anda a construir o socialismo tratando, primeiro e exclusivamente, da reconstrução do capitalismo monopolista. O que se está a passar nos transportes públicos é bem o exemplo disso mesmo. O PS foi forçado, pela luta dos utentes e dos trabalhadores, e pela iniciativa política do PCP, a avançar no caminho da redução tarifária, nomeadamente para o Alargamento do Passe Social Intermodal na Área Metropolitana de Lisboa. E procura desse recuo tirar as devidas vantagens, nomeadamente eleitorais.
Mas recusa-se a tomar as medidas necessárias para repor os níveis de oferta da CP Lisboa, que são no essencial duas: contratar os trabalhadores em falta na EMEF, para que deixem de estar imobilizadas dezenas de unidades; modernizar a Linha de Cascais e relançar o concurso, cancelado em 2010, para aquisição de material circulante.
Só que não há aqui qualquer distração, mas antes uma premeditada preparação de novas privatizações, suportadas no investimento público (na infraestrutura) e no financiamento público à redução tarifária (cujas compensações, em 2018, foram recusadas aos operadores públicos e apenas garantidas aos operadores privados e municipais, novamente).
Quando um jornalista lhe perguntou o óbvio, que com a redução tarifária vai aumentar a procura na CP Lisboa e não há quaisquer medidas previstas para reforçar a oferta nos comboios urbanos, o ministro do Ambiente foi lapidar: «Não temos a mais pequena dúvida de que a própria procura vai ser intensificadora dos investimentos na oferta, como acontece regularmente. Há um número muito elevado de operadores privados que estão no mercado.»
Por outras palavras, a negociata está feita, e o Governo está a cortar as pernas à CP para esta libertar espaço para os privados entrarem. Eis a política de direita, a política da reconstrução do capitalismo monopolista que está a delapidar o País há anos. Uma política a lapidar!