Lapidar

Manuel Gouveia

Desde 1976 que o PS anda a construir o socialismo tratando, primeiro e exclusivamente, da reconstrução do capitalismo monopolista. O que se está a passar nos transportes públicos é bem o exemplo disso mesmo. O PS foi forçado, pela luta dos utentes e dos trabalhadores, e pela iniciativa política do PCP, a avançar no caminho da redução tarifária, nomeadamente para o Alargamento do Passe Social Intermodal na Área Metropolitana de Lisboa. E procura desse recuo tirar as devidas vantagens, nomeadamente eleitorais.

Mas recusa-se a tomar as medidas necessárias para repor os níveis de oferta da CP Lisboa, que são no essencial duas: contratar os trabalhadores em falta na EMEF, para que deixem de estar imobilizadas dezenas de unidades; modernizar a Linha de Cascais e relançar o concurso, cancelado em 2010, para aquisição de material circulante.

Só que não há aqui qualquer distração, mas antes uma premeditada preparação de novas privatizações, suportadas no investimento público (na infraestrutura) e no financiamento público à redução tarifária (cujas compensações, em 2018, foram recusadas aos operadores públicos e apenas garantidas aos operadores privados e municipais, novamente).

Quando um jornalista lhe perguntou o óbvio, que com a redução tarifária vai aumentar a procura na CP Lisboa e não há quaisquer medidas previstas para reforçar a oferta nos comboios urbanos, o ministro do Ambiente foi lapidar: «Não temos a mais pequena dúvida de que a própria procura vai ser intensificadora dos investimentos na oferta, como acontece regularmente. Há um número muito elevado de operadores privados que estão no mercado.»

Por outras palavras, a negociata está feita, e o Governo está a cortar as pernas à CP para esta libertar espaço para os privados entrarem. Eis a política de direita, a política da reconstrução do capitalismo monopolista que está a delapidar o País há anos. Uma política a lapidar!




Mais artigos de: Opinião

255. Um número de barbárie

O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras anunciou a semana passada o resgate de 255 pessoas da Europa de Leste vítimas de tráfico de seres humanos, trazidas para Portugal debaixo do engodo de haver trabalho garantido (e salário, presumiriam os 255), mantidas a trabalhar na apanha da azeitona no Alentejo, com esquemas...

Porque descem as tarifas?

É sabido que, no ano que agora começa, o preço da electricidade para os consumidores finais irá descer em 3,5%. É uma decisão que decorre dos avanços inscritos no Orçamento do Estado para 2019 e que representará a maior redução no preço da electricidade desde a sua liberalização e à qual se tem que juntar a descida do...

Os felizes

A fechar o ano, algumas notícias trouxeram-me à memória o Relatório Mundial da Felicidade de 2018, da autoria da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas. Para quem não se recorda, lembro que os três países mais felizes eram a Finlândia, Noruega e Dinamarca, logo seguidos pela...

Bombeiros e Protecção Civil: um debate necessário

Mais uma vez a temática da Protecção Civil e dos bombeiros ganha enorme visibilidade. E mais uma vez pelas piores razões, porque o sistema e a sua operacionalidade voltaram a ser postos em causa, mas também porque o Governo decidiu aprovar em Outubro um pacote legislativo que está a causar enorme indignação e contestação por parte das associações e dos bombeiros voluntários, sapadores ou profissionais.

Viva Cuba!

Completaram-se na passada terça feira, 1 de Janeiro, os 60 anos do triunfo da Revolução Cubana. «Finalmente chegámos a Santiago, foi um caminho duro e longo, mas conseguimos chegar». A frase com que Fidel iniciou o célebre discurso em Santiago de Cuba foi plena de significado e simbolismo. Fidel referia-se ao caminho...