A respiração
Habita em Roma, ou melhor, num minúsculo estado encravado no meio da capital italiana, e fala «urbi et orbi», o que na peculiar língua por ele muito usada significa que fala para «a cidade e o mundo». Nota-se: não são poucas as vezes em que de facto as suas palavras dão a volta ao mundo e que em resultado dessas voltas entram em nossas casas, nas nossas cabeças, e uma vez por outra até nesta coluna, que é telespectadora por dever.
Ora, o fenómeno (perdoe-se o empolamento que a palavra sugere) voltou agora a repetir-se num tempo que não é um tempo qualquer, na chamada «quadra do Natal» que entre outras coisas apela a que sejam ditas mais verdades e verdades importantes, fora e acima das fórmulas convencionais que se estafaram ao fim de séculos de uso. Que sempre seja assim é duvidoso, mas por vezes acontece.
Podemos lembrar o exemplo de dois versos de Sidónio Muralha: «Hoje é Dia de Natal, / mas quando será de todos?» E tendo assim de passagem homenageado Sidónio e a poesia, podemos voltar a ocupar-nos da actualidade e regressar ao homem que habita em Roma e que tem sido referido aqui por mais de uma vez, porventura vezes de mais, mas sempre por culpa dele. Porque fala e a televisão nos traz as suas palavras. Algumas das quais convém que não andem por aí, ao deus-dará, a passarem despercebidas.
A justeza e o escândalo
Sendo assim, o que desta vez terá dito o senhor que habita em Roma e por tê-lo dito nos obriga à reincidência de mais uma vez o citarmos? Coisa pouca, afinal: se a televisão transmitiu bem o recado ainda que não o repetindo palavra por palavra, denunciou a «voracidade consumista» que domina as sociedades em que vivemos; e bem sabemos nós que tipo de sociedades são, qual a sua estrutura essencial e sobretudo quem as domina.
Mais: sabemos muito bem que a «voracidade consumista» que esta voz rejeita em Roma não é um fenómeno de geração espontânea, que é injectado nas sociedades por mil e um estratagemas para que os «mercados», isto é, o conjunto de milhões de consumidores manipulados e acríticos, comprem e consumam, comprem e consumam infatigavelmente, pois, como se dirá em variação do que Chico Buarque cantou, «consumir é preciso, viver não é preciso».
Em larga medida, o consumismo é a própria respiração do capitalismo, o que confere um significado relevantíssimo à sua denúncia e condenação. Não é a primeira vez, longe disso, que de Roma vêm palavras justas mas susceptíveis de provocar algum escândalo em certa gente: na gente que se escandaliza com as palavras que podem semear a lucidez. Mas são também palavras desafiadoras das peculiares circunstâncias e do clima em que são proferidas.
Como que a lembrar que a lucidez e a coragem, méritos não muito abundantes em certos lugares e condições, podem um dia, para desconforto de muitos, surgir nos sítios onde se tornaram raros.