Concerto de Ano Novo

Manuel Pires da Rocha

Cada Concerto de Ano Novo é testemunho de inteligência, partilha e celebração da vida

No dia 1 de Janeiro de 2019, onde quer que haja uma orquestra disponível, haverá Concerto de Ano Novo. No mundo lá fora e no mais chegado Portugal. Aqueles que não disponham de orquestra ao pé de casa terão sempre a hipótese de, à distância, ter uma ideia da celebração que todos os anos acontece na casa da Filarmónica de Viena, através da transmissão televisiva para todo o mundo.

O primeiro Concerto de Ano Novo da História subiu ao palco da Musikvereinssaal em 1939. Um ano antes – lê-se na página electrónica da Filarmónica de Viena – «os Nacional-Socialistas demitiram todos os artistas judeus da Ópera Estatal de Viena e dissolveram a Associação da Filarmónica de Viena. Só a intervenção de Wilhelm Furtwängler e de outros responsáveis viria a conseguir a anulação da ordem de dissolução e, com duas excepções, salvar da expulsão os “meio-judeus” e “intimamente relacionados”. Cinco membros da orquestra morreram em campos de concentração nazis, outros dois morreram em Viena em resultado directo da tentativa de deportação e perseguição. Nove músicos foram expulsos, partindo para o exílio, onze membros da orquestra, casados com mulheres judias ou estigmatizados como “meio judeus”, permaneceram, sob a constante ameaça de revogação da “autorização especial”. Em 1942, sessenta dos 123 músicos da Orquestra eram membros do partido nazi.»

É, portanto, numa Áustria em desagregação, numa Europa à beira da guerra, que o primeiro Concerto de Ano Novo acontece. Mesmo assim, a Música que ali foi soando, de 1939 a 1945, nunca deixou de ser um assomo de Civilização na escuridão da barbárie, um elemento de Humanidade de que o nazismo se quis apropriar, mas não conseguiu. A música dos Strauss que soou naqueles anos macabros sobreviveria à apropriação nazi, por ser produto da Humanidade, não a sua negação.

Por isso permanece nos nossos dias em cada Concerto de Ano Novo que, na sala vienense e nas do mundo inteiro, é testemunho de inteligência, de partilha e de celebração da vida que desponta simbolicamente neste hemisfério a caminho da Primavera.

À batuta inicial de Clemens Krauss viriam a suceder-se muitas mais: Herbert von Karajan, Claudio Abbado, Carlos Kleiber, Zubin Mehta, Ricardo Muti, Nikolaus Harnoncourt, Seiji Ozawa, Mariss Jansons, Georges Prêtre, Daniel Barenboim, Franz Welser-Möst, Gustavo Dudamel e, neste 2019, Christian Thielemann – gente de muitas origens e credos, como que recusando a memória segregacionista inicial.

Mas as feridas grandes tardam a sarar. Queixam-se os responsáveis da orquestra vienense de que, ainda hoje, as denúncias públicas do passado nazi da Filarmónica insistem em preceder o Concerto de Ano Novo. Injusto lamento. Recordar as vítimas que a Wiener Philharmoniker ajudou a gerar é, certamente, a melhor forma de garantir que o Concerto de Ano Novo nunca deixe de ser um instrumento de Paz.




Mais artigos de: Argumentos

A respiração

Habita em Roma, ou melhor, num minúsculo estado encravado no meio da capital italiana, e fala «urbi et orbi», o que na peculiar língua por ele muito usada significa que fala para «a cidade e o mundo». Nota-se: não são poucas as vezes em que de facto as suas palavras dão a volta ao mundo e que em resultado dessas voltas...

Cuba: há 60 anos a construir o «impossível»

«Sejamos realistas, façamos o impossível.» A frase é de Ernesto Che Guevara, companheiro de Fidel e de Raul assassinado na Bolívia em 1967, e resume em grande medida a gesta revolucionária cubana, que comemorou anteontem, 1 de Janeiro, 60 anos sobre a libertação de Havana e o derube da...