Poderemos ser bons num mundo cruel, pergunta Brecht?

Gustavo Carneiro

A reflexão crítica do mundo contemporâneo é constante nas obras de Bertolt Brecht e A Boa Alma de Sé-Chuão não é excepção

Bertolt Brecht é, desde há décadas, um autor incontornável do percurso criativo da Companhia de Teatro de Almada e do Grupo de Teatro de Campolide, seu antecessor. A Excepção e a Regra, Canções de Brecht ou A Mãe foram algumas das obras do dramaturgo alemão recriadas e interpretadas por este que é um dos mais sólidos projectos teatrais do País. Amanhã estreia, no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, mais uma obra de Brecht, A Boa Alma de Sé-Chuão.

Não sendo um texto com um evidente e assumido sentido político como é, por exemplo, A Mãe, as angústias e inquietações do autor face ao mundo que o rodeia perpassam todo o espectáculo. Ao contrário da adaptação do romance homónimo de Maksim Gorki, em A Boa Alma de Sé-Chuão as respostas são poucas, mas as perguntas, essas, são imensas. E flagrantemente actuais: «podemos ser bons num mundo cruel?»

A trama, cuja versão definitiva data de 1942, desenvolve-se num subúrbio chinês marcado pela miséria, o desemprego, os magros salários, a fome e as deformações morais que inevitavelmente marcam as sociedades profundamente desiguais: «os bons não se podem manter bons com os pratos vazios», diz-se, a dada altura. Ou será que podem? A jovem prostituta Chen Te, conhecida como «anjo dos subúrbios», vê a sua bondade recompensada pelos deuses e abre uma tabacaria, abandonando a vida que, «não, não era agradável».

À medida que a sua sorte se torna conhecida aparecem os falsos amigos, os oportunistas, os preguiçosos em busca da sua «ajuda». Para evitar a falência, a jovem assume paralelamente o papel de um suposto primo, Chui Ta, nada dado a sentimentalismos e mais preparado para lidar com contingências comerciais e até legais. Quando engravida, Chen Te faz «regressar» o primo, ainda mais cruel como patrão de uma fábrica de tabaco: «filho, para ti quero ser boa, e ser tigre e animal bravio para todos os outros, se tiver que ser. E tem que ser», canta a jovem.

Esta dupla personalidade – entre a jovem sonhadora, generosa e apaixonada e o «primo» frio e calculista – marca toda a acção. A interpretação destes dois papéis pela jovem e consagrada actriz Rita Cabaço é a todos os níveis exemplar.

Conto de fadas ou retrato do mundo?

Por mais que a acção se passe num imaginado subúrbio da China do início do século XX, é impossível não olhar para A Boa Alma de Sé-Chuão como se tivesse sido escrita ontem. A própria encenação ajuda-o: cenografia simples e arrojada, figurinos a remeter para os dias de hoje, música rock tocada e cantada ao vivo pelos próprios actores e, aqui e ali, uns acrescentos ao texto sobre T0 caríssimos, alojamento local para turistas, salários mínimos miseráveis... Mas, como sublinhou ao Avante! o encenador Peter Kleinert, «97 por cento do texto que vamos apresentar é o original de Brecht».

Para o encenador alemão, que já passou por Almada e esteve por duas vezes na Festa do Avante!, esta peça é uma espécie de conto de fadas intemporal, que Brecht colocou na China precisamente para que se distanciasse de quem a visse. A aproximação com cada um dos públicos (em cada uma das épocas, acrescentamos nós) deveria ser alcançada pelo conteúdo do texto e pelas questões que levanta. O que é preciso é mudar o mundo ou as pessoas? É possível mudar o mundo sem mudar as pessoas? Como se muda o mundo? Estas são algumas das perguntas que Peter Kleinert retira da obra de Brecht às quais reconhece flagrante actualidade e grande complexidade.

Não é, pois, por acaso que o espectáculo termina com um desafio directo ao público: «Nós sabemos que isto é fraca conclusão. Tínhamos em mente uma lenda dourada e sem darmos conta tudo deu em nada. (…) Só se quiserdes vós próprios reflectir como é que a alma boa podemos ajudar a um bom desfecho acabar por chegar.»

O espectáculo fica em cena até 11 de Novembro no Teatro Municipal Joaquim Benite.




Mais artigos de: Argumentos

Notícias de Francisco Franco

Foi uma informação breve, aparentemente irrelevante ou pouco mais e por isso talvez apenas prestada em rodapé do ecrã: estará a ser investigada em Espanha uma prática ali adoptada nos sinistros tempos do franquismo de que ainda por lá subsistem, como bem se sabe, inconsoláveis saudosistas. Na verdade, convém acrescentar...

Obras de Cândido Portinari em Portugal

Na celebração do seu 11.º aniversário, o Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira apresenta a exposição Cândido Portinari em Portugal. O principal destaque desta exposição é sem dúvida a mítica obra Café, cedida pelo Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, que regressa ao nosso...