Poderemos ser bons num mundo cruel, pergunta Brecht?
A reflexão crítica do mundo contemporâneo é constante nas obras de Bertolt Brecht e A Boa Alma de Sé-Chuão não é excepção
Bertolt Brecht é, desde há décadas, um autor incontornável do percurso criativo da Companhia de Teatro de Almada e do Grupo de Teatro de Campolide, seu antecessor. A Excepção e a Regra, Canções de Brecht ou A Mãe foram algumas das obras do dramaturgo alemão recriadas e interpretadas por este que é um dos mais sólidos projectos teatrais do País. Amanhã estreia, no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, mais uma obra de Brecht, A Boa Alma de Sé-Chuão.
Não sendo um texto com um evidente e assumido sentido político como é, por exemplo, A Mãe, as angústias e inquietações do autor face ao mundo que o rodeia perpassam todo o espectáculo. Ao contrário da adaptação do romance homónimo de Maksim Gorki, em A Boa Alma de Sé-Chuão as respostas são poucas, mas as perguntas, essas, são imensas. E flagrantemente actuais: «podemos ser bons num mundo cruel?»
A trama, cuja versão definitiva data de 1942, desenvolve-se num subúrbio chinês marcado pela miséria, o desemprego, os magros salários, a fome e as deformações morais que inevitavelmente marcam as sociedades profundamente desiguais: «os bons não se podem manter bons com os pratos vazios», diz-se, a dada altura. Ou será que podem? A jovem prostituta Chen Te, conhecida como «anjo dos subúrbios», vê a sua bondade recompensada pelos deuses e abre uma tabacaria, abandonando a vida que, «não, não era agradável».
À medida que a sua sorte se torna conhecida aparecem os falsos amigos, os oportunistas, os preguiçosos em busca da sua «ajuda». Para evitar a falência, a jovem assume paralelamente o papel de um suposto primo, Chui Ta, nada dado a sentimentalismos e mais preparado para lidar com contingências comerciais e até legais. Quando engravida, Chen Te faz «regressar» o primo, ainda mais cruel como patrão de uma fábrica de tabaco: «filho, para ti quero ser boa, e ser tigre e animal bravio para todos os outros, se tiver que ser. E tem que ser», canta a jovem.
Esta dupla personalidade – entre a jovem sonhadora, generosa e apaixonada e o «primo» frio e calculista – marca toda a acção. A interpretação destes dois papéis pela jovem e consagrada actriz Rita Cabaço é a todos os níveis exemplar.
Conto de fadas ou retrato do mundo?
Por mais que a acção se passe num imaginado subúrbio da China do início do século XX, é impossível não olhar para A Boa Alma de Sé-Chuão como se tivesse sido escrita ontem. A própria encenação ajuda-o: cenografia simples e arrojada, figurinos a remeter para os dias de hoje, música rock tocada e cantada ao vivo pelos próprios actores e, aqui e ali, uns acrescentos ao texto sobre T0 caríssimos, alojamento local para turistas, salários mínimos miseráveis... Mas, como sublinhou ao Avante! o encenador Peter Kleinert, «97 por cento do texto que vamos apresentar é o original de Brecht».
Para o encenador alemão, que já passou por Almada e esteve por duas vezes na Festa do Avante!, esta peça é uma espécie de conto de fadas intemporal, que Brecht colocou na China precisamente para que se distanciasse de quem a visse. A aproximação com cada um dos públicos (em cada uma das épocas, acrescentamos nós) deveria ser alcançada pelo conteúdo do texto e pelas questões que levanta. O que é preciso é mudar o mundo ou as pessoas? É possível mudar o mundo sem mudar as pessoas? Como se muda o mundo? Estas são algumas das perguntas que Peter Kleinert retira da obra de Brecht às quais reconhece flagrante actualidade e grande complexidade.
Não é, pois, por acaso que o espectáculo termina com um desafio directo ao público: «Nós sabemos que isto é fraca conclusão. Tínhamos em mente uma lenda dourada e sem darmos conta tudo deu em nada. (…) Só se quiserdes vós próprios reflectir como é que a alma boa podemos ajudar a um bom desfecho acabar por chegar.»
O espectáculo fica em cena até 11 de Novembro no Teatro Municipal Joaquim Benite.