Quando os Lobos Uivam, de Aquilino Ribeiro - 60 anos de uma obra modelar da resistência

CULTURA Que País éramos em 1958? Que lodo nos tolhia, que noite nos algemava de silêncio, que mordaça invisível nos esmagava as palavras e as tornava clandestinas, embora a sua fibra de aço não esmorecesse? Que País cercado de pavores era este País onde um livro, ou vários, toda a escrita insubmissa e honrada, um filme, uma peça de teatro, uma exposição, eram brutalmente sonegados à leitura, ao conhecimento do povo?

A nível literário e político, 1958 foi um ano importante da história recente do País

«(...) Há lá uns mariolas que espicaçam o povo. São os cabeças de motim. (...) A esses o que havia a fazer desde já era deitar-se-lhes o gatázio... dá-los como comunistas».

E todo o protesto, por mais inócuo, era violentamente reprimido. Onde um operário fabril ganhava à medida de duas frugais refeições diárias e nos campos se mourejava de sol-a-sol por jornas de fome; onde, nas altas serras beirãs se vivia em casas celtiberas, a meias com os currais do gado e a pocilga dos bácoros; onde os mais lestos e audazes partiam a salto para França e Alemanha deixando abandonadas às pedras e aos tojos as leiras magras das aldeias onde nasceram.

O ano da publicação de Quando os Lobos Uivam, é um período de grandes lutas e significativas transformações políticas e sociais: o fascismo de Salazar opõe-se ao carácter institucional de Craveiro Lopes e decide não o apoiar, como a facção Marcelista defendia, às eleições para a presidência da República, substituindo-o por um obscuro e subserviente Contra-Almirante, que fora um irrelevante ministro da Marinha, Américo Tomás. A oposição, depois da desistência de Arlindo Vicente, apresenta-se ao escrutínio unida em torno do general Humberto Delgado. O objectivo primordial era derrotar o fascismo o que, não fora a máquina tentacular e golpista da União Nacional, teria sido possível. «Segundo os números oficiais das eleições, Humberto Delgado reuniu cerca de 25% dos votos. Obviamente falseados».1

Alguns títulos importantes para a história da literatura portuguesa são igualmente publicados nesse ano: No Reino da Dinamarca, de Alexandre O’Neill; A Barca dos Sete Lemes, de Alves Redol; Teatro do Mundo, de António Gedeão; O Amigo das Tempestades, de Antunes da Silva; Voz Velada, de Arquimedes da Silva Santos; Trinta Dinheiros, de Assis Esperança; Viagem com o Teu Rosto, de Egito Gonçalves; O Amor em Visita, de Herberto Hélder; Iniciação Estética, de João José Cochofel; O Anjo Ancorado, de José Cardoso Pires; Léah e Outras Histórias, de José Rodrigues Miguéis; É Urgente o Amor, de Luís Francisco Rebello; Uma Pedrada no Charco, de Urbano Tavares Rodrigues; Seara de Vento, de Manuel da Fonseca e Quando os Lobos Uivam, de Aquilino Ribeiro. Uma safra de primeiríssima água, com títulos que deram muitas dores de cabeça aos reumáticos vigilantes de serviço.

Este tipo de literatura, maioritariamente preocupada com os aspectos sociais do seu tempo e do País que nela se reflectia, levou Álvaro Cunhal a afirmar, no texto que serve de prefácio à magnífica edição que a editorial Avante! produziu em 2008, com desenhos de João Abel Manta, assinalando os 50 anos da publicação de Quando os Lobos Uivam, obra exemplar de mestre Aquilino sobre a capacidade colectiva de resistência dos povos serranos: «Dominado há 37 anos por uma ditadura fascista, Portugal oferece a particularidade de que a corrente dominante na literatura não é a corrente oficial mas a corrente democrática e revolucionária. Este facto só por si testemunha o isolamento do governo ao serviço duma dúzia de grupos monopolistas associados ao imperialismo estrangeiro e de algumas centenas de latifundiários».

Quando os Lobos Uivam e a Censura

Quando os Lobos Uivam, o mais conseguido e corajoso investimento de carácter social e épico na obra romanesca de Aquilino, levaria os censores a um desbragado e acintoso relatório, do qual salientamos a apreciação formal do relator, investido na pele de crítico literário:

«O autor intitula este livro de romance, mas com mais propriedade deveria chamar-lhe de romance panfletário, porque todo ele foi arquitectado para fazer um odioso ataque à actual situação política.

Escrito numa prosa viril, classifica o governo de “piratas” e descreve várias Autoridades, Funcionários, Polícia, Guarda Republicana e Tribunais em termos indignos e insultuosos.

Um interrogatório num posto da GNR e uma audiência dum Tribunal Plenário, são focados de uma forma infamantes.

São desnecessárias mais citações, porque basta folhear o livro, encontra-se logo matéria censurável em profusão.

É evidente que, se o original tivesse sido submetido a censura prévia, não teria sido autorizado, porque é, talvez, a obra de maior ataque político que ultimamente tenho lido.

Sucede, porém, estou disso certo, que já devem ter sido vendidos muitas centenas de exemplares, e muitos outros também, já devem ter passado a fronteira, por isso, deixo ao esclarecido critério de V. Exa., decidir se nesta altura, será de boa política mandar apreender o livro (…).»2

Na realidade foram apreendidos pouco mais que umas dezenas de exemplares, o grosso da edição fora vendida antes do grito de raiva e impotência do zeloso censor. A reedição da obra foi, no entanto, proibida, assim como quaisquer referências críticas na imprensa.

Aquilino, homem curtido nas Terras do Demo, não deixou de sofrer as invectivas do regime pela «afronta» ao sacrossanto Estado Novo: o regime considerou o livro injurioso, uma afronta ao seu despótico poder, pelo que lhe moveu um processo-crime, que durou anos nas secretarias, tendo sido arquivado, no âmbito de uma amnistia e após um vasto movimento de apoio ao escritor por parte dos intelectuais portugueses, a que se juntaram outros vultos de renome, principalmente franceses, como François Mauriac, Louis Aragon e André Maurois. Por ocasião da sua morte, e em sequência de diversas homenagens que lhe foram prestadas, a censura proibiu qualquer notícia referente a estes acontecimentos.

Aquilino, o da prosa viril, mesmo depois de morto continuava a ser perigoso.

«Alçar o povo ao primeiro plano da literatura»

Nascido nas faldas da serra da Nave, também conhecida por serra do Leomil, Aquilino Ribeiro conhecia bem os caminhos agrestes das altas Beiras, esse espaço de tojos, fetos e pedras, pássaros, láparos e lobos, de homens rudes que comem caldo e broa, se vestem de borel e dormem em enxergas de palha. Terras dos homens que enfrentavam os frios invernais com um capuz fradesco, granjeando leiras de terra dura, as safras minguadas de centeio e milho. Homens bárbaros, mas bárbaros livres, que livres querem os seus ancestrais caminhos: «Ah, eu detesto esses cordões, esses guardas, esses letreiros que desviam um homem do seu caminho ou lhe cortam o passo!», diz Manuel Louvadeus aos engenheiros que o regime enviou para as aldeias com a função de convencerem as populações das «vantagens civilizacionais» da «expropriação» dos lugares da Serra dos Milhafres que sempre foram baldios comunitários, para neles serem plantados pinheiros e eucaliptos.

O Dr. Rigoberto, defensor das gentes serranas e dos seus direitos, dirá aos serventuários do regime, num discurso empolgado, de ressonâncias camilianas: «(...) A serra, em tanto que realidade geográfica, é uma coisa e – deixem-me empregar um palavrão – em tanto que factor psicológico é outra. A nada disto oferece o Estado uma contrapartida satisfatória. (...) a serra é berço, paládio e até altar. Os filhos, julgam Vosselências que eles os fazem na cama, debaixo da fumosa e feia telha-vã?! Não, senhores, os filhos fazem-nos na serra quando a queirós e a giesta estão em flor». Ao discurso de Rigoberto, o engenheiro Lisuarte Streit, representante do regime, uma das mais sinistras personagens do romance, responderá com sobranceria: «Tudo isso é lirismo, e do mau».

Mas é esse apelo da terra, do seu espaço telúrico e identitário, do direito de pertença aos largos horizontes serranos, que levará o povo à revolta e à resistência. «Se vêm para cá com tractores e tropa a proteger os tractores, como ouvi dizer que vinham, corre sangue. Fique o senhor certo de que corre sangue», dirá Manuel Louvadeus.

E o sangue cobrirá os caminhos da serra, o povo das aldeias tentará impedir que o governo prossiga o esbulho, que reduza até limites insuportáveis a miséria que os cerca. Em lugar de escolas, de electricidade, de estradas, de casas dignas, melhoramentos que vivem nos sonhos de Manuel Louvadeus – brasileiro torna viagem, regressado à serra tão pobre como partiu, tal Manuel da Bouça, de Emigrantes, de Ferreira de Castro, que um dia, após passar três anos nas masmorras fascistas, voltará aos sertões em busca da fortuna perdida –, a estes justos desideratos o governo responde com a violência armada, sonegando ao povo as terras onde sempre apascentou os gados, recolheu o mato para estrumar os campos e cortou a lenha para se aquecer nas noites invernais; os lugares onde «as cerejeiras eram a alegria da serra por altura das ceifas», tinham-lhes sido roubados por um governo arbitrário e cruel.

João Rebordão, um dos instigadores da revolta, dirá sem rodeios, enfrentando os esbirros do regime: «Os senhores praticam um roubo!». Ao grito de revolta do povo, em tom de desafio, o colérico eng.º Streit responde com a empáfia de um fascista que pensa que todo o mundo lhe pertence: «Praticamos um roubo... (...) E depois?». Mas o aviso de Rebordão ecoará na serra como um desígnio futuro: «Sim, hoje levam os senhores a melhor, amanhã, quando nascerem os pinheiros, hão-de pôr uma praça a cada um se quiserem que ele vingue».

Os capítulos em que Aquilino Ribeiro desenvolve o processo persecutório a que foram sujeitos os «cabecilhas» da revolta, manifesta com rigor a luta de classes que este romance desenvolve na sua formulação mais expressiva, política e democraticamente consonante com as forças progressistas da Nação, ao denunciar a disfunção repressiva do aparelho judicial do fascismo, mostrando-o (com toda a corte de insídias, perjúrios, hipocrisia, atribulações) claramente conotado com as forças mais reaccionárias e os interesses do grande capital.

Ao juntar num mesmo julgamento operários em greve e os revoltosos da Serra dos Milhafres, uns e outros acusados de subversão, a acutilante pena de Aquilino encena, com mestria, a farsa em que se funda o poder fascista, autocrático e fora-da-lei. O olhar crítico do autor de Malhadinhas, atento às consonantes filosóficas do marxismo, não deixa igualmente de estabelecer pontes de cumplicidade com as classes intermédias (o Dr. Rigoberto e o Eng.º César Fontalva), que assumem no processo posições corajosas, de sentido democrático e antifascista.

Álvaro Cunhal, teórico culto e lúcido, dirá deste romance de Aquilino: «O estilo e vocabulário de Aquilino é também uma forma de ligação do escritor com o povo, uma expressão do amor do escritor com o povo, uma forma de alçar o povo português ao primeiro plano da literatura».

Teotónio Louvadeus, a personagem mais firme, humana e justa deste romance, depois de vingar a honra do filho Manuel, matando o delator (e traidor de classe) Bruno Lêndeas, o velho serrano destruirá pelo fogo a floresta plantada a mando dos déspotas de Lisboa nos territórios baldios da Serra dos Milhafres. Não é já a reconquista de um território comum que o fogo configura, mas é já um começo, porque tudo será possível Quando os Lobos Uivam.

 

1 Ramiro Teixeira, Ilse Losa – Vida e obra, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Porto 2013, p.431

2 CENSURA – Relatório Nº 6282 (7 DE Fevereiro de1959) relativo a Quando os Lobos Uivam, de Aquilino Ribeiro – Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira.




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