«Good News»

Correia da Fonseca

Parece haver lugares onde se diz, talvez sabiamente, «No news, good news». Trata-se, já se vê, de uma visão global e pessimista da desejabilidade das notícias novas, mas como regra geral talvez a regra se justifique pelo menos quanto às notícias que a televisão diariamente nos traz. E é explicável a razão desse acerto: por um lado porque a televisão tem uma preferência consabida pelas más notícias, as que parecem vir alimentar o seu aparente gosto pelas desgraças de qualquer ordem, e por outro lado porque o que para a TV são notícias boas podem não o ser para o cidadão telespectador, para o país, para o mundo. E é neste quadro ou segundo este critério avaliador das notícias que a televisão diariamente vai pingando nas nossas cabecinhas sempre mais crédulas do que a prudência aconselha que se regista com agrado a ausência nestas últimas semanas, talvez até nestes últimos meses, de notícias da desgraça que a partir se certa altura se abateu sobre a Síria. Todos recordarão sem esforço que não há muito tempo todos os dias surgiam nos nossos televisores informações e imagens que testemunhavam o horror que se abatera sobre um país que até certa altura se mantivera como uma espécie de oásis num Médio Oriente assolado por ventanias sinistras. E também que a responsabilização por essas desgraças era atribuída ao presidente sírio, Bashar-al-Assad, cujo derrube se imporia às forças ditas democráticas, tão democráticas que haviam sido directa ou indirectamente mobilizadas, reunidas e armadas, pelos Estados Unidos da América, facto que por si só dispensa qualquer outro argumento ou prova da sua democraticidade.

À míngua

Pois bem: salvo alguma rara excepção, sumiram-se essas quotidianas notícias acerca da Síria e das desgraças sobre ela abatidas, o que só pode confirmar a regra que ensina significar «good news» a ausência de «news». Quem porventura suspeitar de que esta conclusão está ferida de alguma ligeireza ou de coisa pior pode aplicar-se a uma reflexão breve: a de que a informação que nos é fornecida está longe de ser bacteriologicamente pura, de que tem donos, que de facto é tão militante/militarizada que bem se justificaria andar por aí fardada se tanto lhe fosse possível. Assim, a ausência de notícias sobre a Síria pode ser entendida como sintoma de falência da agressão, o que é óptimo não apenas por ser justo mas também porque sinais de paz, mesmo apenas de alguma paz, são sempre esplêndidas notícias. Poder-se-á objectar que é cedo para grandes alegrias, que o imperialismo «ocidental e democrático» não desiste facilmente mesmo quando parte alguns dentes, mas ainda assim é quase impossível resistir à tentação de «ler» com algum optimismo esta ausência de telenotícias. Porque à míngua de confiáveis coberturas informativas, resta-nos talvez recorrer a interpretações que implicam algum risco.




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