Os olhos selectivos
Com perdão da imagem de duvidoso gosto, poder-se-á dizer que a televisão portuguesa no conjunto dos seus vários canais é uma espécie de bicha de muitas cabeças e, consequentemente, de muitos olhos e ouvidos. Dito isto, já não será surpreendente nem desajustado que se acrescente que essa tal bicha tem ouvidos e olhos especialmente dirigidos para certos alvos, não muitos, e que um deles é a Venezuela de Chavez e do chavismo, do presidente Maduro e do obstinado prosseguimento de uma política de libertação nacional ainda que eventualmente onerada por pesados custos. Sendo assim, com dose de ingenuidade quanto bastasse, seria de estranhar que à bicharoca, sempre muito gulosa de ocorrências tendencialmente escandalosas e com impacto mediático, tivesse passado quase despercebido o atentado recentemente havido contra Maduro e de que até pudemos ver imagens, sim, mas tão fugidias que o telespectador comum mal terá dado por elas e logo complementadas pela expressão de dúvidas quanto à veracidade do acontecimento. Mas as ingenuidades são, de um modo geral, de evitar, e são-no muito mais quando se trata da televisão, do que ela nos conta e da maneira como o faz.
Um peculiar talento
O caso é tanto mais interessante quanto é certo que foi muitas vezes referido pela televisão portuguesa como «suposto atentado», assim se pondo em dúvida a veracidade da notícia, isto mesmo enquanto o governo português, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, na circunstância órgão adequado, emitia um comunicado oficial em que repudiava «os acontecimentos de sábado na Venezuela», é certo que usando assim uma linguagem um tanto ambígua que não lhe fica maravilhosamente. Entretanto, quem quisesse informar-se por outras vias poderia ficar a saber que um deputado da oposição venezuelana, Juan Requesens, terá sido detido por provável responsabilidade no atentado, e também que Nicolas Maduro declarou aceitar a colaboração do FBI nas investigações do caso. Tudo isto e provavelmente algo mais passou despercebido aos olhos argutos da televisão portuguesa que provavelmente estaria nessa altura a olhar para qualquer outro lado. Aliás, esse peculiar talento é conveniente para a manutenção da serenidade e boa ordem «nas ruas e nos espíritos», como se diria há cinquenta anos ou mais, e é uma das mais marcantes capacidades da TV que nos é dada ou, mais exactamente, vendida a preço módico. No caso deste atentado que a televisão portuguesa frequentemente tem vindo a adjectivar de «suposto», talvez a veracidade reconhecida afinal por todo o mundo venha a impor-se. Lá terá ela de desistir da expressão de dúvida. Mas não será dramático, encontrará caminhos para prosseguir a cruzada contra a Venezuela: contra esta Venezuela que diz «não!» ao tradicional patrão ianque e a quantos marcham às vozes de comando do mesmo patronato.