Crianças
Era a chamada hora do almoço e a televisão, porventura para nos compensar das notícias tristes, tendencialmente dramáticas, que nos vinha dando, informou-nos de que um rapazinho belga de oito anos de idade concluiu o seu curso secundário e vai passar imediatamente para a universidade. Embora saibamos que da Bélgica, designadamente de Bruxelas, vêm com frequência notícias impressionantes, muitas vezes com um carácter monstruoso, esta é obviamente diferente e melhor: ainda que o menino belga nos surja um pouco como um monstrinho na medida em que é anómalo, será quando muito portador de uma monstruosidade simpática e desejemos que seja um monstrinho feliz. Inserido como está numa sociedade competitiva em que as competências contam, é natural que a excepcionalíssima capacidade para a aquisição de competências de que dá claro sinal o favoreça, e ainda bem. No mesmo bloco informativo que nos trouxe esta notícia, alguém veio dizer-nos que a equipa belga de futebol é óptima e uma forte candidata à vitória final no Mundial em disputa na Rússia. Pois sim, ainda bem para a Bélgica, mas é pelo menos simpático que talentos belgas não se afirmem apenas no futebol mas também, ainda que com estatuto de excepção, na aprendizagem escolar.
Nascer num lado bom
Eis, porém, que uma sombra impertinente terá descido sobre alguns dos telespectadores que assistiam ao noticiário: a notícia feliz daquele feliz menino que com a sua proeza escolar ganhou direito a referência noticiosa e decerto fez a felicidade e o orgulho de seus pais terá convocado, por ácido contraste, uma memória bem diferente: a da imagem, há meses também trazida pela televisão, de um outro menino mais jovem, isto é, ainda mais menino, caído na areia de uma praia do Mediterrâneo Oriental. E morto. Essa imagem correu então algum mundo, comoveu decerto muita gente, mas não apenas estará hoje quase completamente esquecida como também outros meninos, dezenas se não centenas deles, terão entretanto sido depositados pelas águas na areia de praias ou em margens com outro recorte. Pior: bem se pode dizer que subsiste a sinistra máquina invisível que retira meninos (e não só, e não só, bem o sabemos!) da margem setentrional de África para os lançar numa arriscadíssima tentativa de sobrevivência. Não temos fotografias dos que morrem nessa aposta desesperada, quando muito temos por vezes imagens fugazes de momentos trágicos. Mas poderemos lembrar-nos deles quando nos chega a notícia da feliz proeza de um menino que, por ter nascido belga e não líbio, não teve de atravessar nenhum Mediterrâneo.